Eu macetei um bloqueio que já durava anos
Em fevereiro do ano passado eu postei o que seria apenas o meu segundo texto aqui neste humilde blog, chamado Desenhar é enfrentar seus demônios. Nele eu falei sobre como a Pandemia da Covid e a campanha Fique em Casa foram o impulso que eu precisava para resgatar uma paixão da infância: o desenho. E uma informação que eu deixei de fora naquele texto foi que um dos meus gastos (na verdade o maior deles) com materiais para desenho foi a compra de uma mesinha digitalizadora One by Wacon, o modelo mais simples da marca. A ideia era ir além do papel, mas houveram percalços. O primeiro deles foi ter de encarar a desconexão entre desenhar na mesa e ver o traço na tela do computador. Enquanto que num desenho tradicional a linha sai de uma ação mecânica de onde você exatamente encostou o grafite no papel, no computador você não pode olhar para o movimento que faz com a mão porque você precisa olhar para a tela. É muito estranho, e por isso eu foquei apenas em produzir obras na base do tracing (uma técnica que consiste em copiar outro desenho) e tutoriais do maravilhoso Art Academy, do Nintendo DS usando as ferramentas do Krita em vez das do próprio aplicativo. O segundo infortúnio que me acometeu foi que a minha placa mãe pifou, e eu fiquei um bom tempo sem computador. Com este consertado, foi então a vez do meu monitor primeiro começar a exibir linhas horizontais, para então finalmente pifar de vez depois. Arranjei um do exato mesmo modelo emprestado, que estava jogado num canto, sem uso na empresa de uma tia, cheio de manchas e linhas verticais que apareceram assim que o liguei pela primeira vez na minha casa; não era em uma tela full HD e sequer tinha proporção 16:9. Tava feio o negócio…
Eu mal tinha vontade de ligar o computador, pra ser franco. Porém, cinco anos mais tarde eu finalmente consegui comprar um monitor novo, parcelado em 12x, o qual eu ainda estou pagando. Nada muito chique, mas só o fato de ser uma tela um pouco maior e com proporção 16:9 já me deu um novo ânimo, e uma das promessas que fiz ao comprá-lo foi que eu voltaria a tentar desenhar no computador. Se eu tinha gastado com uma mesinha digitalizadora, eu iria usá-la, sim! Só que... não. O monitor chegou e... bem, eu procurei fazer qualquer outra coisa que não fosse desenhar. E por “qualquer outra coisa” nessa minha louca procrastinação eu quis dizer: “aprender a fazer jogos eletrônicos”. E você agora provavelmente está pensando: “mas como você é burro! Fazer jogos é muito mais difícil do que desenhar, e no fim das contas, você ainda vai ter que aprender a desenhar de qualquer jeito, já que se você mal tem grana pra comprar um monitor, então não poderia pagar um artista pra fazer isso por você!”. É, eu sei. Não me julgue. O interessante da loucura é que ela não tem o menor compromisso com o fazer sentido.
Comecei a fuçar com a queridinha Godot, e depois de semanas batendo a cabeça pra entender aquele diacho, desisti e comecei a explorar alternativas. Baixei GB Studio, e fucei com a Gdevelop e a Defold, fiz alguns tutoriais, li um pouco da documentação, e baixei aplicativos de ensino de programação, deixei abas abertas pra talvez explorar outros engines, mas depois disso tudo, finalmente baixou em mim a realização de que fazer um jogo sozinho é uma tarefa dantesca, e percebi que eu muito provavelmente estava perdendo meu tempo só pra não fazer algo que eu certamente era muito mais capaz de fazer: desenhar.
Lembrei que tinha salvado uma postagem da querida Thaise Oliveira, em que ela compartilhou um vídeo-tutorial no YouTube ensinando tudo de mais importante que você precisa saber pra desenhar no Krita, e eu fui lá assistir. Alguns dias depois, sozinho em casa, criei coragem e resolvi me testar. Pela primeira vez eu faria uma arte 100% digital e 100% original no computador! Nada de tracing; nada de tutoriais! Estava preparado para mais uma vez encarar essa constante da minha vida, que é a frustração, e segui em frente.
Como disse no texto que mencionei lá no começo, meu método é mais baseado em achismo do que em técnicas de desenho utilizadas por profissionais. Eu sou só um bobo qualquer tentando brincar de desenhar, e de alguma forma isso funciona pra mim. Minha técnica consiste em imaginar uma figura no papel (ou tela) em branco, e com um lápis bem de leve eu vou dando forma à mesma. Nada de esqueletos, nada de manequins. Parto direto para algo próximo da forma final. Se algo parece desproporcional, torto ou fora do lugar, eu apago e refaço até encontrar o formato que eu desejo. E assim, em poucos minutos, eu fiz um rascunho, e fiquei feliz em perceber que, sim, era possível! Depois veio a blocagem (disposição das cores sólidas de maneira rudimentar) e os traços definitivos, aparagem e refinamento de arestas, até encontrar uma versão chapada do que viria a ser o desenho final. Depois vieram pequenas correções e adição de detalhes e experimentação, como a textura e as dobras das roupas, as pernas que inicialmente eu não pretendia mostrar, o sombreamento em geral, detalhes dos olhos e orelhas, a pelagem do urso, etc. Basicamente eu saí testando os pincéis padrão e estilos de camada do Krita, tentando encontrar um caminho como quem avança cortando a mata com um facão: às vezes você dá de cara com uma pedra enorme, às vezes um lago ou rio que não dá pra atravessar; mas às vezes você encontra uma passagem que o leva mais pra perto de onde você pretende chegar. E nesse processo eu fui descobrindo como alcançar certos efeitos que eu desejava. Por fim, joguei um fundo que casava com a imagem, transferi a imagem para o celular, e a processei mais um pouco em apps de edição de imagem como o Snapseed, por exemplo, pra dar um “tchan” a mais. O resultado final está longe de ter a qualidade de um trabalho de um profissional, mas caramba, vou deixar a modéstia à parte aqui pra dizer que eu não posso deixar de estar satisfeito com o que saiu, porque eu literalmente não fazia muita ideia do que eu tava fazendo, e ainda assim saiu algo apresentável, o que parecia algo inimaginável quando eu comecei!
Eu cometi muitos erros, e de alguma forma paradoxal, a obra saiu melhor do que eu esperava, e ao mesmo tempo pior do que eu acho que poderia fazer, o que é uma sensação interessante! Mas é pra isso que existe a experimentação, não é mesmo? E pra consolidar o aprendizado, emendei outro desenho logo na sequência, aumentando o nível do desafio com uma pose “três quartos”, pois percebi que estava ficando dependente de desenhos mais simétricos, com personagens vistos de frente. Ontem mesmo eu estava me digladiando para descobrir como desenhar o rosto do personagem, e na base da tentativa e erro e exploração das ferramentas do Krita, eu acho que finalmente consegui! E isso que está sendo o mais legal desse processo: não conseguir de primeira, apagar, tentar de novo, ajustar, tentar novos caminhos e descobrir que o que antes parecia impossível agora é possível. E esta é exatamente a razão pelo qual eu escrevo esse texto. Eu vejo muita gente se dizendo incapaz de desenhar, e eu passei cinco anos com esse mesmo bloqueio, pra finalmente descobrir que, sim, eu realmente não sei desenhar de primeira, mas eu posso fazer uma aproximação grosseira, e a partir dela, nada mais é impossível, pois toda correção subsequente é relativamente pequena e perfeitamente encarável!
Rascunho no papel, bloqueio vai pro beleléu!
Racunho na tela, joga o bloqueio pela janela!
É como diz o meme: just make it exist first. You can make it good later. Eu não gosto da frase “se eu consigo, você também consegue!”, pois pessoas são distintas, e o que funciona pra um pode não funcionar para outro. Mas se serve de incentivo, eu digo pra você que eu, um bocó prestes a completar 42 anos e que se julga sem talento e sem muito estudo, comecei algo novo, descobri que não era um completo incapaz, e estou super empolgado com isso, principalmente porque já vejo que quando concluído, o segundo desenho será melhor que o primeiro, e provavelmente o terceiro será melhor que o segundo. O mesmo efeito aconteceu no papel, mas eu sinto que as possibilidades no digital são muito maiores…