Blog do DD ʕ´•ᴥ•`ʔ

Desenhar é enfrentar seus demônios

É doido pensar que sobrevivemos a uma pandemia de um vírus altamente letal, mesmo que o governo da época tivesse feito de tudo para nos matar. Doido também pensar que o evento será lembrado daqui a um século, isso se pandemias do tipo não se tornarem corriqueiras com o colapso do clima, ou se não tivermos de lidar com algo ainda pior. O fato é que foi um evento histórico, do tipo que alguém contaria para os netinhos. “Vovô! Vovô! É verdade é o presidente mandou as pessoas tomarem remédio de verme pra matar um vírus?”, e o vovô dirá: “sim, minha querida netinha! E a besta ainda ofereceu cloroquina pra uma ema!”. A netinha não poderá dizer nada além de “Carai, cuzão! Namoral?! E o aloprado do tio Walter ainda defendia esse arrombado?!”, ao que o vovó responderá: “é foda”.

A nossa sorte é que pra cada Bolsonaro e apoiador dele, há 1,01 pessoa minimamente sã que o repudia, muitos deles cientistas, divulgadores científicos e jornalistas minimamente sérios. Foi graças a essas pessoas que tivemos a campanha “fique em casa”, que certamente ajudou a conter o espalhamento do vírus. Além deles, e até surpreendentemente, algumas empresas demonstraram solidariedade, oferecendo materiais gratuitos para tornar a tarefa de ficar preso em casa um pouco menos intolerável. Uma delas foi a Faber-Castell, que abriu sua plataforma de cursos para quem quisesse, sem custos. Eu, que sempre sonhei em aprender a desenhar, agora tinha tempo e recursos.

Comprei materiais, gastei pilhas de sulfite com os exercícios do também gratuito curso online Draw a box, assisti horas e mais horas de vídeos do Thiago Spyked e de outros artistas, fiz centenas de exercícios, foquei, me dediquei bastante, e... não aprendi nada.

Bem… “nada” talvez seja um exagero. O que os cursos me deram, foi ter mais vontade de desenhar. Mas logo descobri que vontade não é o mesmo que coragem. Eu não sou uma pessoa ousada. Eu não consigo “meter as cara” e não me importar com o resultado. Infelizmente, crescer é desenvolver inibições. Uma criança desenha suas linhas tortas com todo desprendimento, enquanto um bocó como eu sente vergonha de si próprio e de seu trabalho.

Uma das coisas que eu aprendi com os cursos e vídeos que assisti, é que desenhar é um processo. Não é qualquer um que lida com cada traço como se fosse o último. Meros mortais (incluindo a maioria dos artistas profissionais) criam uma base, pra depois finalizar. Ignorar essa parte é como tentar construir um edifício sem uma fundação. Profissionais dirão que você deve criar esqueletos, rascunhos, etc. É basicamente um desenho em cima de outro desenho, em cima de outro desenho, cada camada mais detalhada que a anterior. No meu caso, como sou preguiçoso, eu meio que pulo algumas etapas, o que talvez seja a causa do meu desespero quando encaro uma folha de papel em branco. O meu processo se resume a pensar em desenhar por dias, até ter coragem de abrir o caderno de desenho, olhar para o papel e tentar imaginar algo ali, alguma forma, um rosto, uma pose, como se já estivesse lá antes de qualquer coisa… Depois, com um lápis mais duro como um HB, por exemplo, traço linhas bem suaves, mal marcando o papel, como se desbravando-o, explorando o ambiente. Se uma linha parece meio torta, é fácil de apagar, e então eu exploro uma região adjacente, buscando sempre a perfeição.

O problema é que eu nunca a encontro.

Cada linha é um marcador para onde as linhas finais virão, na etapa seguinte. Sigo esse processo até me sentir mentalmente exausto. E então fecho o caderno, e o desenho fica lá, inacabado, mas jamais esquecido. Ah, não, não, eu realmente não me esqueço dele... Na verdade ele se faz lembrar dia após dia, como se me dissesse “você é fraco”, “você é um incapaz”, “você não tem talento”, “você não se esforça”, “você é um inútil”. A arte me ajudando a explorar o que faço melhor: odiar a mim mesmo.

Digo isso porque neste exato momento, estou com um desenho me esperando para ser concluído há algumas semanas. E o pior: deveria ter sido um singelo presente de aniversário para um amigo de internet. O aniversário há muito se foi, mas a coragem para concluir o desenho ainda não deu o ar da graça.

Corrompendo a famosa frase de Nietzsche: “quando se olha muito tempo para um papel, o papel olha de volta para você”. O papel se torna um espelho, refletindo minhas próprias falhas e inseguranças. Burro, incapaz, inútil, preguiçoso, incompetente, incompleto… Talvez isso seja um sinal pra eu me lançar na política. Mas pelo menos não sou burro a ponto de oferecer cloroquina a uma ema, pois sei que tirando as vítimas da malária, lúpus e outras doenças onde seu uso é recomendado, só um jumento aceitaria.

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