A maior vitória é a que você conquista contra si próprio
Eu entendo o apelo. Criar algo é difícil, exige paciência, renúncia e tempo. E eu não estou falando sobre... sei lá, criar um foguete espacial. Uma simples pipa já é um desafio. Desenhar demanda esforço; escrever demanda esforço; programar demanda esforço; mesmo ler demanda certo sacrifício! Nós ainda somos essencialmente a mesma criatura nômade que andava em grupos de caçadores e coletores centenas de milhares de anos atrás, e naquela época a alimentação não era uma certeza. Por conta disso, evoluímos de modo a sermos excelentes conservadores de energia, porque isso é uma vantagem evolutiva. Se o corpo estoca gordura, o cérebro cria vias neurais para atividades que nos são corriqueiras. É por isso que você faz certas coisas no piloto automático, enquanto que, por exemplo, o ato de dirigir é tão estressante para um motorista novato. O mesmo vale para cozinhar uma receita, tocar um instrumento musical, fazer cálculos matemáticos pela primeira vez. A cabeça esquenta, fica pesada, você se sente fisicamente cansado, porque praticar algo novo demanda muita energia.
E então surgem as IAs generativas. Eu não pretendo me aprofundar nas questões éticas sobre como as IAs foram desenvolvidas roubando o trabalho de seres humanos com a finalidade de tirar o trabalho dos seres humanos pra enriquecer meia dúzia de especuladores (manipuladores) de mercado, ou sobre como elas espalham desinformação e são responsáveis um novo tipo de psicose, ou sobre o seu gigantesco custo ambiental, ou ainda sobre como essa é a mãe de todas as bolhas econômicas que mesmo sem ter ainda estourado, já prejudica imensamente a vida das pessoas encarecendo, por exemplo, o custo de componentes eletrônicos e a conta de água e energia, além de causar distúrbios geopolíticos que já provocam guerras hibridas, e já com participação direta em guerras quentes pelo mundo. Tem gente muito mais capacitada do que eu pra falar sobre essas questões. Mas em resumo: IA generativa é colonialismo, é roubo; é violência e morte. É um crime contra a humanidade. Dizem que não existe consumo ético no capitalismo, mas puta merda, viu!
...mas para o Marquinhos, é a ferramenta ideal pra ele criar sprites de bonecos com hepatite e sete dedos pro joguinho que ele sempre sonhou em fazer. Pro Enzo, é a coleção de wallpapers realistas de Naruto. Pro Paulinho, é o amigo que ele não tem na vida real. Pra Valentina, é o terapeuta que dá dicas erradas e eventualmente sugere que ela tire a própria vida. Pro Wanderson, é o cardápio poluído de sua lanchonete. Pra Ana Julia, é um livro E capa que ela vai vender na Amazon. É tudo tão prático! Um simples prompt e voilà! Em troca de um mero Lago Paranoá e duas toneladas de CO² despejadas na atmosfera, você tem um belíssimo produto desprovido de qualquer carisma e traço de humanidade, que causará asco em pelo menos uma de cada três pessoas… Mas pro Marquinhos, é só uma ferramenta como qualquer outra!
Eu me lembro de uma aula no meu curso de Sistemas de Informação, lá pela primeira metade da primeira década deste século, quando a gente ainda tinha esperança no futuro, um professor afirmou que a tecnologia veio para libertar o homem do trabalho maçante, e que no futuro as pessoas teriam mais tempo para curtir a família, para criar, pensar, para aproveitar a vida! O homem liberto do trabalho seria mais criativo, teríamos novas invenções num ritmo mais acelerado, e talentos menos desperdiçados. O Carlos Eduardo, por exemplo, poderia poderia ser o novo Pelé se não precisasse passar o dia lavando louça em um restaurante. Maria Luíza poderia seguir o seu sonho de ser pintora em vez de se preocupar com a limpeza das toalhas e roupas de banho do hotel onde trabalha. José poderia lançar a sua carreira de músico em vez de passar o dia empilhando lajotas e carregando sacos de cimento… Mas o que vemos hoje é a IA produzindo música, escrevendo poesia e criando imagens em vez de realizar trabalhos maçantes. Sim, eu sei que existem projetos para que as IAs assumam também o trabalho maçante, mas nesse mundo capitalista neoliberal, isso não significa a libertação do homem, mas sim mais uma fonte de lucro para os campeões do capitalismo. Em outras palavras, o projeto não é libertar o homem, mas sim descartá-lo.
No começo dessa febre das IAs era comum ver pessoas se descrevendo como “artistas de IA”, e até “engenheiros de prompt”. Mas por conta do bullying que sofreram, muitos passaram a esconder o uso das IAs, e resolveram posar como os verdadeiros criadores de suas obras. O problema é que quando você diz que você mesmo fez a pizza que você está levando para a casa dos amigos, mas chega com uma caixa da Domino’s Pizza, com uma pizza com a aparência e gosto de uma pizza da Domino’s Pizza, ninguém vai te levar a sério. Imagens geradas por IAs costumam possuir especifidades quase impossíveis de não serem notadas. Eis que um tempo atrás eu descobri que alguns desses tais “artistas de IA” estavam gerando não apenas uma imagem final, mas também uma imagem “irmã” para emular um suposto making-of. O quão patético é isso, eu não consigo nem mensurar… O que me lembra de um caso recente na comunidade furry.
A comunidade furry é extremamente artística. Furries adoram criar! Alguns fazem desenhos, outros fazem músicas, alguns produzem animações, e outros ainda fazem fursuits. E por se tratar de um público queer (independente da orientação sexual, porque furry hétero ainda é a porra de um furry), furries costumam ter algum grau de consciência social. Trata-se também de um público com bom nível de letramento tecnológico, e unindo todos esses aspectos, você tem um público altamente crítico das IAs generativas, e que valoriza o aspecto humano daquilo que consume. Um rabisco todo tortinho possui valor muito maior do que uma obra tecnicamente bem acabada gerada por uma IA. Por conta disso, volta e meia surgem umas tretas, principalmente entre artistas, com acusações sobre o uso dessas ferramentas. O caso mais recente foi o de um artista que, ao ser acusado de fazer tracing de imagens geradas por IA, passou a postar timelapses de seu processo. Confesso que por não ter muita experiência com esse tipo de ofício, fui enganado; cheguei a pensar que estavam pegando no pé do sujeito de maneira injustificada. Algumas pessoas apontaram erros típicos de IA que o artista não corrigiu na versão final, mas o que me convenceu foi o argumento de que nos vídeos de timelapse, cada pincelada era definitiva, não havia sinal de dúvida ou correções, nenhum erro. O processo ia do começo ao fim sem nunca voltar atrás, sem nunca se questionar, e não é assim que um processo criativo funciona.
De novo: eu entendo o apelo. Todo mundo quer fazer algo bonito, mas poucos parecem dispostos a encarar o processo. No meu post anterior eu falei sobre como eu derrubei um bloqueio que eu tinha, e que já durava anos. A sensação de receber elogios por algo que eu fiz com as minhas próprias mãos é muito boa, mesmo que venham majoritariamente de pessoas que me conhecem. Fora desse círculo, os elogios já se mostram mais raros, o que indica pra mim que estou cercado de pessoas que me querem bem, e me incentivam a continuar melhorando, enquanto que a falta de validação externa talvez indique que eu ainda precise melhorar bastante. E tudo bem! É bom receber elogios – pelos quais sou imensamente grato, aliás – e seria bacana se a avaliação externa fosse na mesma proporção. Mas a questão mais importante nisso tudo – e que espero ter conseguido transmitir naquele texto – é que a maior vitória é a que você conquista contra si próprio.
Por mais que a IA possa produzir trabalhos tecnicamente interessantes, por sua própria natureza algorítmica de detecção e replicação de padrões, ela sempre produzirá resultados artisticamente medíocres, porque é para isso que ela foi feita: pra reproduzir a média. Não julgo quem é obrigado a utilizar, ou que vê utilidade nessas ferramentas. Mas do ponto de vista artístico e humano, o uso de IAs é sempre sinal de fracasso.
Qualquer carreira no mundo artístico é uma montanha-russa, e muitos sucessos resultam da combinação de várias circunstâncias felizes. Mas deve existir algo mais também.
Orson Welles