Videogames são um vislumbre do futuro
O mercado de videogames está em crise. Demissões em massa, estúdios fechando, vendas estagnadas, e o preço atual absurdo do hardware puxado pela pressão mercadológica das IAs sendo colocado como o grande responsável por tudo isso. Infelizmente isso é apenas a ponta do iceberg. Se num passado não tão distante o preço das placas de vídeo disparou por conta dos mineradores de criptomoedas, hoje vemos o preço de quase todos os outros componentes de um computador e consoles dispararem por conta da concorrência com os data centers de IA, o que somado à uma (suspeita) formação de cartel por parte dos fabricantes, tornaram a venda desses dispositivos praticamente inviável para o cidadão médio.
Mas se as IAs encarecem o hardware, por outro lado, elas estão sendo usadas para desvalorizar a mão de obra, já que grande parte dessas demissões se deve à promessa de as IAs serem usadas para substituir o trabalho humano. Pouco importa se é um fato consumado ou apenas fumaça. O mero fato de a indústria jogar milhares de profissionais nas ruas ao mesmo tempo já tem esse valor pedagógico e mercadológico: quando um capitalista diz pra você que o capitalismo estimula a concorrência, que por consequência leva à melhora da qualidade ao mesmo tempo em que também leva à queda do valor de algo que está sendo comercializado, ele está falando não da indústria, mas do trabalhador. Quanto mais gente disputando uma mesma vaga, menos valor tem aquele que a ocupa.
E tudo isso não acontece por acaso. Se no passado um jogo de primeira qualidade demandava uma equipe de algumas dúzias de profissionais, hoje vemos jogos produzidos por times com centenas, e até milhares de profissionais. A indústria transformou a produção de jogos de videogames em um risco imenso. Um jogo triplo A atualmente precisa de um orçamento na casa das centenas de milhões de dólares, e no caso de GTA VI, essa cifra ultrapassa facilmente a casa do bilhão, o que para a Rockstar não é problema. Ninguém no mundo seria insano o suficiente para duvidar que GTA VI vai se pagar. Já tivemos inúmeros casos de jogos imensamente aguardados, e/ou que ficaram em desenvolvimento por mais de uma década, mas nada comparável a GTA VI. GTA pode ter o orçamento que for, porque GTA vai vender e se pagar muitas e muitas vezes. O problema fica para o restante da indústria, que forçou esse modelo de mercado, onde cada grande estúdio tem a esperança de ser ele o grande campeão dessa peleja ultracapitalista que, confesso, não estou achando nada divertido de acompanhar.
Se todo jogo virou uma questão de vida ou morte, isso é um sinal claro de que o mercado está longe de ser saudável. Todo jogo quer ser a grande moda; todo jogo quer ter modelos de monetização além do valor inicial pago pelo mesmo. E nessa ânsia por mirar em um público amplo, e em esquemas de retenção de jogadores, temos jogos com cada vez menos personalidade, e que se parecem cada vez mais com trabalho em vez de entretenimento. Da mesma forma que um trabalhador que opera na escala 6 x 1 não tem tempo para sair e curtir seja lá o que ele queira curtir, o jogador também não tem tempo para outros jogos se todo jogo demanda tanta atenção e investimento dele.
De certa forma, o mercado de videogames atual é um vislumbre do futuro inevitavelmente monopolista do capitalismo, concentrando todo o poder na mão de cada vez menos gente, e o resto do mundo que se mate.