Vidas frágeis, sonhos despedaçados
No meu último texto, cujo título peguei emprestado da música “The kids aren’t alright”, da banda The Offspring, eu falei sobre a minissérie Adolescência, da Netflix. Como tem apenas quatro episódios, fiquei com um gostinho de “quero mais”, e decidi assistir outra série inglesa que estava na minha lista: Bebê Rena. E, assim como no post anterior, este também contém spoilers.
Bebê Rena conta a história de Donny Dunn, um ator quebrado que mora meio que de favor na casa da sua ex-sogra, e trabalha como barman para pagar as contas, enquanto sonha em se tornar comediante. Donny, porém, talvez tenha mais vocação para a tragédia.
Certo dia, no bar onde trabalha, ele vê uma mulher de meia idade entrar pela porta, parecendo desolada. Donny oferece a ela uma bebida, e a mulher, chamada Martha, diz que não pode pagar por aquilo. Donny então diz que seria por conta da casa, numa tentativa de animá-la. Martha o olha nos olhos, surpresa, e lança elogios ao rapaz, que acaba se sentindo lisonjeado. Donny é um cara solitário e frustrado, provavelmente nem se lembrava da última vez que recebera um elogio. Começa então um ciclo do que inicialmente parecia generosidade, que logo se torna questão de ingenuidade, quando mentiras e flertes começam a voar. Nesse ponto, a maioria dos espectadores talvez pense “eu teria cortado logo ali”. Você muito provavelmente não cortaria. A maioria das pessoas sente dificuldades em dizer “não”, e quase ninguém quer parecer rude, especialmente contra alguém que está sofrendo. E daí que ela estava claramente mentindo? E daí que flertasse? Em alguns minutos ela iria embora, e os dois nunca mais se veriam, certo? O que custava a Donny ser legal com a moça? Receber uns flertes e elogios pode ser bom para o ego, e Donny – como uma plantinha murcha precisando desesperadamente de um pouco de água – precisava disso. O problema é que Martha sofria de sérios transtornos mentais. Ela era uma Stalker, e desenvolveu uma obsessão doentia por Donny. Ele habilmente conseguiu se esquivar de lhe dar seu número de telefone, mas Martha logo descobre seu e-mail no site do bar, e assim a caixa de e-mail do rapaz foi soterrada com mensagens terminadas em “enviado do meu iPhone”, “envinado do meu iPhone”, “envisnado do me ipone”, e similares.
Numa de suas apresentações humorísticas, onde raramente conseguia arrancar alguma gargalhada, Donny avistou Martha no auditório. Assustador num primeiro momento, sim, mas Martha se mostrou uma boa “aquecedora” de plateia, puxando risadas de todos, além de levantar bolas para o humorista cortar. Foi certamente a melhor apresentação na vida de Donny. De certa forma, e por mais bizarro que fosse, parecia que de alguma forma Martha… se não lhe fazia bem, ao menos preenchia um vazio em seu âmago. Donny, de maneira torta, a desejava, mas não por completo. Durante toda a série há um claro conflito entre querer afastá-la, e não conseguir. Martha, por outro lado, era um tornado categoria F5, e Donny era o telhado de um celeiro em seu caminho, transformando a já miserável vida do rapaz num verdadeiro e ardente inferno. Parecia que a cada instante Martha poderia se materializar em pleno ar. Sua constante presença é sufocante.
Em seus curtos sete episódios, a série nos presenteia com diversas reviravoltas, nunca deixando de instigar e chocar o espectador. Numa dessas viradas, Donny descola um ingresso para um clube muito restrito, onde conhece um roteirista que trabalhava em grandes obras da TV. Esse homem diz ver grande potencial em Donny, e começa a agir como seu tutor. Donny vê no homem a sua chance de ser alguém na vida. A relação entre eles era de lisonja seguida de humilhação. Donny certamente dizia para si próprio que isso era parte do aprendizado, e seguia sendo presença constante na casa do roteirista. Não demorou para que o homem lhe oferecesse drogas, e Donny aceitava, talvez para não fazer desfeita, ou pra se conectar mais ao homem. A conexão então se torna física, e não-consensual. E mesmo humilhado e abusado, por algum motivo, como um cãozinho, Donny retorna à casa do roteirista, de novo e de novo e de novo, sofrendo repetidos abusos, acreditando que no fim, tudo valeria a pena; que ele se tornaria “alguém”.
Donny é um colecionador de traumas. Apesar de ser um homem adulto, navega pela vida com uma inocência quase infantil. De certa forma, algo conecta Jamie Miller (o personagem principal da série Adolescência) e Donny Dunn: a vulnerabilidade. Jamie, por ser uma criança facilmente impressionável e influenciável; Donny, devido a sua condição social: a pobreza. Independente da causa, ambos são criaturas frágeis, e ambos são complexos. Jamie não fez o que fez por ser mau; tampouco Donny “permitiu” (por falta de termo melhor) que certas coisas acontecessem com ele por ser bobo ou inerentemente incapaz. Donny é um rapaz que em algum momento tomou uma curva errada na vida, e desde então paga por esse erro, sem nunca receber uma chance real para se redimir, sem saber o caminho de volta, vítima de um sistema que nos mastiga como chiclete, e nos cospe quando não temos mais sabor. Mesmo Martha não é pura e simplesmente a encarnação do mal, apesar de ser uma presença tenebrosa em tela. Ela teve uma história, uma infância traumática onde seu único conforto era uma pelúcia de um bebê rena; daí o apelido que dá a Donny, e também a origem do nome da série.
Se no post sobre Adolescência eu peguei emprestado o nome de uma música da banda The Offspring, a este, dou ao título seu último verso. As crianças não estão bem, e os adultos também não.