Uma breve aula de boiologia
Um argumento homofóbico que vejo com frequência, é o que diz que “Deus fez o homem pra procriar com a mulher”, que isso é “biologia básica”, e que o homosexualismo é errado porque sexo gay não gera prole. Devo assumir que o sujeito não “dá no couro” se não for pra fazer filho? Então cadê os 20 filhos? O caldo é fraco, ou será que ele não faz? Depois toma chifre e não sabe o motivo…
Pessoalmente eu acho mais honesto quando a pessoa fica só no argumento bíblico, e não tenta usar a ciência contra quem de fato acredita nela, porque tudo bem você acreditar em Levítico, é uma prerrogativa sua. Mas não me venha falar de biologia quando você acredita que Matusalém realmente viveu 969 anos, ou acredita no criacionismo e na Arca de Noé, só pra citar alguns exemplos.
Dias atrás eu estava vendo um vídeo sobre o transtorno narcisista (não é o tema deste texto), e uma especialista na mente humana, pra explicar como pessoas acabam se enfiando em relacionamentos tóxicos ao se envolver com narcisistas, disse que a paixão (ou crush, como convencionou-se chamar nos últimos anos) é um traço evolutivo, uma descarga de hormônios que faz uma pessoa se apegar obsessivamente por outra, e que isso normalmente dura cerca de um ano e meio, que é o tempo para o casal procriar, e o pai permanecer ao lado da mãe por pelo menos os primeiros meses de vida do bebê.
Exatamente um ano atrás eu estava na academia, quando vi o meu professor instruindo um aluno novo. Não pude ver o aluno em si além de sua silhueta, pois ele estava num contraluz, mas ele tinha um formato que eu só posso descrever como perfeito para o meu gosto [bem] particular. Minutos mais tarde eu pude vê-lo sub uma luz mais apropriada, e foi como se o meu coração tivesse parado de bater por alguns segundos. Ele não era apenas incrivelmente formoso, mas ele também era lindo! Ouso dizer que a pessoa mais bonita em todo o planeta estava bem ali na minha frente (pro meu gosto, quero ressaltar). O rostinho ursino tímido e angelical, a pele perfeita, a barba, e aquele senhor par de pernas. WOOF! Não demorei pra perceber o que estava acontecendo: eu estava apaixonado. Soube disso porque já havia acontecido antes, com outro rapaz, na minha adolescência, que acabou virando o meu melhor amigo por um tempo (a forma como eu o conheci foi meio engraçada, mas não cabe aqui…).
Mas voltando ao crush último, na época eu estava meio viciado em duas playlists, uma seleção com as minhas favoritas da Anita Baker, e outra de rock. Se a primeira me derretia o coração com brabas do naipe de Sweet Love, Caught Up In The Rapture e Giving You The Best That I Got, a segunda se destacava por Time And Time Again, da banda Chronic Future, cuja letra diz:
Vez após vez, caímos nas profundezas de quem somos / Mas você não pode continuar fugindo daquilo que deseja encontrar / Coloque-se nos cenários mais assustadores / Vivencie experiências nas quais, normalmente, você não ousaria entrar / Tudo isso compõe o caráter e aquele brilho arrogante / De reconhecer a própria imagem conforme seus padrões de crescimento / E aquilo que seus pais lhe deixaram para lidar / Certifique-se de carregar tochas quando suas velas eles tentarem apagar / Tentar prever o que vai acontecer pode ser desagradável, mas desvencilhe-se disso / Não apague de você a parte responsável pelo seu desejo
Se eu não tive coragem de me declarar para o meu amigo, essa música parecia me dizer para criar um par de bolas e não deixar essa nova oportunidade passar. É um daqueles momentos mágicos em que uma música se encaixa perfeita e acidentalmente em dada circunstância de sua vida. Ela continua:
Bem, eu vi você e as coisas que você faz / E a maneira como você esconde essa sombra, isso não pode ser bom para você / Sua sombra define a sua luz
Foi provavelmente esse trecho que me instigou a sair do armário para a maior parte dos meus coleguinhas online, pra desabafar e pedir ajuda sobre como agir. E, francamente, eu estava disposto a mostrar a minha sombra para todo o mundo se eu conseguisse conquistar aquele coração. Eu precisava de um plano. A música segue:
Há algumas partes profundamente danificadas de mim com as quais eu preciso lidar / E se eu gaguejar, me desculpe; é difícil manter a agilidade / Quando, em meu estômago, carrego o peso de uma âncora / Que tenho tentado esconder, fingindo que não existe / Bem, é isso que acontece quando você fica irritado por estar irritado / Você cava um buraco tão fundo que acaba resistindo apenas por resistir / E não há como recuperar as experiências que você deixou passar / Então, comece agora, hoje mesmo, e troque a fúria pela felicidade plena
E foi esse trecho que me fez tomar coragem de abordá-lo. Como é algo que eu nunca havia feito, estava extremamente nervoso, pensando em como fazê-lo. Como a academia não é um local dos mais apropriados, decidi por escrever uma espécie de “carta” no aplicativo de notas do meu celular, e entregá-lo para que ele lesse. Mas antes disso, eu precisava quebrar o gelo, e foi aí que eu não apenas errei, mas também descobri que o “amigo” com quem ele ia pra academia junto era na verdade o seu parceiro. Ai...
Naquele dia eu saí da academia tremendo, e desabei em choro sozinho quando cheguei em casa. O casal certamente percebeu minhas intenções, e nunca mais compareceu na academia no pouco mais de mês e meio que eu permaneci lá depois disso, o que fez eu me sentir ainda pior...
Enfim, engraçado como essa tal biologia funciona. Eu e aquele rapaz não poderíamos produzir prole, mas mesmo assim, um ano depois, meus hormônios ainda continuam fluindo loucamente, me fazendo não conseguir passar um mísero dia da minha triste existência sem pensar naqule gordinho. Mas é isso, acho que Deus me fez assim como parte de um teste, pra ver se as pessoas realmente amam umas às outras como Jesus nos amou...