Sobre bloqueios narrativos e transtornos mentais
Recentemente, em conversa online com um amigo, falávamos sobre fóruns antigos, política, e sobre como as duas coisas se misturavam. A certa altura, meu amigo me perguntou sobre como eu havia me tornado “woke” (sim, eu sei da possível problemática no uso desse termo, mas meu amigo é alguém com o coração no lugar). Aquela pergunta me pôs para refletir. Disse que cresci numa família de eleitores do PT, que se orgulha de dizer que sempre votou na esquerda. Mas hoje, vejo que as coisas são um pouco mais complexas. Votar no PT não significa necessariamente possuir valores progressistas. A minha família é católica, e bastante conservadora em vários aspectos. Um exemplo é a homofobia. Não que faltem com respeito no trato com homossexuais, mas longe deles, falas e piadas homofóbicas são comuns. Eu mesmo já fui alvo de comentários jocosos, mesmo nunca tendo saído do armário.
A primeira vez que eu tive contato com pessoas abertamente gays da minha faixa etária foi justamente naqueles fóruns de videogame. Eu conversava com eles tentando manter certo ar de normalidade, mas, no fundo, havia um receio quase inexplicável de minha parte. Eu não me enxergava como um deles. Bizarramente, eu também era homofóbico. Mas, de certa forma, foi o começo de uma espécie de “terapia de exposição”. Eram rapazes da minha idade que gostavam das mesmas coisas que eu, e eram pessoas absolutamente normais. Eu cresci induzido a pensar que pessoas queer eram degeneradas, e que tudo na vida delas se resumia a libidinagem. Não que haja algo de errado nisso, mas repito: cresci em um meio católico relativamente conservador. Eu nunca quis ser visto como um depravado, e mesmo se eu não for, só o fato de eu ser eu mesmo já me coloca essa pecha. A culpa católica é bastante substancial.
Esse contato foi há cerca de 15 anos. Hoje, sou um homem de meia idade, e posso dizer que fiz bastante progresso. Foi um processo de anos, e toda exposição, por menor que fosse, me ajudou nessa caminhada. Cada demonstração de apoio à causa, cada amigo queer ou aliado... O que me coloca pra pensar num post que eu vi um tempo atrás. Infelizmente eu não lembro onde vi, ou de quem foi, mas ele falava sobre pessoas LGBT que colocam avisos em seus perfis dizendo que não engajam em conversas com menores de 18 anos. Não preciso (mas vou) dizer o óbvio de que você não deve engajar em atividades de cunho sexual (mesmo que apenas pela internet) com pessoas menores de idade. Você sabe que isso é não só imoral, mas também um crime. E digo isso como alguém que foi repetidamente abusado quando criança. Eu sei muito bem o que isso faz com a cabeça de uma pessoa.
Eu realmente entendo o temor. O que não falta são pessoas (principalmente religiosos e expoentes da extrema-direita) que perversamente tentam associar a homossexualidade à pedofilia, então é natural querer se proteger. Por outro lado, além de estar cedendo terreno ao inimigo, se pessoas de bom coração fecham as portas para adolescentes que estão se descobrindo queer, de certa forma a gente tá deixando o terreno livre para os verdadeiros pedófilos. Aquele post me fez questionar se deixar a molecada LGBT à própria sorte também não é um tipo de violência. A mesma coisa pode ser dita em relação aos ataques às aulas de educação sexual nas escolas, da proibição a livros que abordem a temática LGBT, ou das leis que proíbem crianças e adolescentes de acessarem redes sociais (como a da Austrália), ou ainda (e aqui entrando numa área bastante espinhenta) a proibição de sites de conteúdo pornográfico nos EUA e Inglaterra. Eu sou a favor de crianças e adolescentes acessando redes sociais tóxicas e conteúdo pornográfico? Absolutamente não. Se eu tivesse filhos, faria o possível pra que isso não acontecesse. Mas eu seria hipócrita de dizer que eu não fiz isso na minha adolescência. Então segue um oversharing (nada que eu já não tenha revelado no Mastodon) aqui: eu sinto atração por corpos gordos. Então além da homofobia, eu também sempre tive de lidar com a gordofobia. Eu cresci envergonhado de mim mesmo, e das minhas preferências sexuais. Quando eu descobri (infelizmente através da pornografia) que eu não estava sozinho, e que eu faço parte de uma categoria de pessoas, não posso negar que fiquei feliz. Eu não era uma aberração como pensava. Eu só não era como a maioria das pessoas (e será que existe mesmo uma “maioria”?). Mas eu não estava sozinho, e isso, de certa forma, é reconfortante…
Não, eu definitivamente não acho que os sites de pornografia são a melhor forma de um jovem queer se conhecer. Também não acho que as redes sociais comerciais sejam um caminho particularmente interessante. Mas também não acho que bloquear toda e qualquer chance de um adolescente discutir, explorar e poder compreender a sua sexualidade seja a solução. Penso que uma forma sensata de se fazer isso, é através da tão “controversa” representatividade. Eu estudei em colégio católico. As poucas aulas de educação sexual que tive foram dadas (pasme) pela minha professora de ensino religioso. Homossexualidade nunca era abordada, e o sexo era apresentado sempre como algo perigoso (gravidez indesejada, ISTs, etc.). Seria maravilhoso se eu tivesse tido acesso a algo como a webtoon Duncan & Eddie na minha adolescência, por exemplo. Muito se fala que a série popular X, ou o famoso personagem Y são representações LGBT na cultura pop, mas na maioria dos casos, isso é feito de maneira velada, de forma que um adolescente talvez não seja capaz de compreender; e quando a representação é explícita, geralmente é em uma produção de nicho (como a webtoon que mencionei). É estranho falar, mas apesar de eu sempre ter defendido a representatividade nas mais diversas mídias, justamente agora, escrevendo essas palavras enquanto homem branco cis, que eu finalmente percebi como eu também poderia ter me beneficiado dela. Mas o que vemos é um esforço para o apagamento de certas existências, uma forma clara de violência.
É… seria bom se cada um pudesse ser o que é sem medo de julgamentos. O autoconhecimento muitas vezes precisa de estímulos externos. Uma pessoa com suas particularidades e que não faz mal a ninguém jamais deveria se sentir inadequada!
Certa vez um amigo compartilhou comigo o seguinte texto:
Freud também entende a dor como um sintoma que indica um bloqueio na história de uma pessoa. A pessoa é incapaz de continuar sua história. Os transtornos psíquicos são expressões de uma narrativa bloqueada. A cura consiste em liberar o paciente desse bloqueio narrativo, em verbalizar o não-narrável. O paciente é curado no momento em que ele se narra".
Somos diversos; somos únicos. Somos os diferentes, e certamente não vivemos como iguais. Lutemos por um mundo onde possamos viver e narrar nossas próprias histórias.