Sincronicidade ursina
Eu ainda não sei o que fazer deste blog, e este primeiro post, com sua clara falta de foco, deve deixar isso claro. Isto só veio a existir por conta do texto traduzido pelo querido Guilherme Gall “Crie a porra de um blog”.
Conheci o Guilherme (@gmgall@ursal.zone) no Mastodon, a rede de microblogs descentralizada similar ao Twitter. Criei minha primeira conta lá por volta de 2020, mas assim como muitos, me senti perdido, confuso, e acabei nem dando muita chance. Fui só pra garantir o nome de usuário (risos). Havia o Twitter, afinal de contas! Até que um dia, numa de suas rotineiras tentativas de manipular o mercado e ampliar sua já imensa fortuna enganando o séquito de trouxas que o veneram, o oligarca Elon Musk anunciou que pretendia comprar a plataforma e, depois, disse que havia desistido da compra. Mas por se tratar de um completo imbecil, Elon descobriu que ele teria de pagar uma multa de um bilhão de dólares pela desistência. O berro da falácia dos custos irrecuperáveis fez tanto eco dentro daquela cabeçona oca que o implante capilar deve ter até afrouxado.
Talvez para contradizer outro palhaço que certa vez afirmou que “pior que tá, não fica”, Elon conseguiu a proeza de deixar o Twitter ainda pior, não só porque o seu desespero para recuperar o dinheiro investido era evidente, com a imediata e obviamente não pensada implementação do Twitter Blue; como também determinou que o Twitter passaria a ter “liberdade de expressão”, o que em linguagem de gente significa permitir que aquele ambiente já naturalmente tóxico se tornasse um literal antro de racistas, misóginos, xenofóbicos, homofóbicos, transfóbicos… Estamos falando de um cara que desavergonhadamente fez uma saudação nazista em rede nacional, afinal de contas.
Uma das coisas que o Twitter Blue prometia, mediante uma singela assinatura de sessenta reais mensais, era maior alcance das suas postagens. Já não era segredo pra ninguém que todas as grandes redes sociais cortavam o alcance de pessoas comuns para promover influenciadores e posts patrocinados. Pra te convencer disso, Elon ordenou a adição de um contador de visualizações embaixo de cada post, para que os usuários vissem que eles estavam basicamente falando pras paredes, e que talvez valesse a pena assinar o tal do Blue. Eu, que nasci pobre mas não nasci otário (tá, a segunda parte é mentira), tinha um seguidor pra cada dia do ano, e descobri que nem 10% deles recebia as minhas postagens. Receber uma simples curtida de um amigo era uma raridade. Uma resposta então, mais improvável que Elon Musk não ser nazista!
Não fazia sentido continuar por lá. Então resolvi experimentar outras redes; Spoutible, Tumblr, Bluesky, me fiz mais presente no Reddit, que eu já usava, mas foi o Mastodon o que mais me surpreendeu. Nessa segunda tentativa, cheguei por um servidor nacional, e o único que eu conhecia à época, a Ursal.zone. Lá eu não encontrei nenhum conhecido, não levei nenhum amigo comigo, mas, surpreendentemente, foi onde mais me senti em casa! A fofurinha da Tati (@Tati@panelinha.club) me apresentou o lugar, as pessoas, e o que eu vi ali me deixou absoluta e positivamente surpreso. Se naquele novo Twitter (agora X) eu já me sentia um estranho no ninho, no Mastodon eu me sentia num ninho de estranhos. E digo isso com a mais nobre das intenções! Se em outros lugares as pessoas adicionavam “não sou petista, mas…” antes de qualquer opinião política minimamente à esquerda, ali as pessoas diziam “falhou, falha e falhará”. Deparei-me com um bando de comunistas, anarquistas, programadores, hackers, gays, lésbicas, pessoas trans, não-binários, furries, autistas, artistas, leitores, gamers, homens e mulheres, jovens, coroas, pretos, brancos, amarelos, vermelhos, toda sorte de pessoas, muitas delas marginalizadas em outros lugares, simplesmente coexistindo ali, sendo elas mesmas. Nenhuma máscara, nenhuma performance pra atrair a atenção de um algoritmo, ninguém querendo influenciar ninguém, nenhum coach, nenhum trambiqueiro exibindo Porsche, mansão e relojão tentando te convencer a torrar a sua grana em rifa, NFT, cryptomoeda, bet, jogo do tigrinho, urubu do pix… Apenas pessoas maravilhosamente reais e diversas, num ambiente muito mais leve e aconchegante. Claro que nem tudo são flores; volta e meia aparece um esquisito, ou rola uns arranca-rabos, mas no geral, o clima é infinitamente melhor. Mas o que mais me surpreendeu foram as interações! Se no Twitter eu me sentia falando sozinho, no Mastodon é raro ter um post ignorado, não só porque não há um algoritmo cortando o seu alcance, mas também por conta do louvável esforço da comunidade em manter as conversas fluindo, como é possível observar, por exemplo, com as hashtags diárias. Há os dias para se falar de música, dias para se falar de livros, dias para se falar de games, séries e filmes...
Falando em diversidade e filmes, outro dia, a pedido da mamãe, assistimos Lilo & Stitch. uma das animações mais adoradas da Disney. É dito que o filme teve de ser produzido quase todo em segredo, porque em condições normais ele jamais receberia o sinal verde. Apenas quando já estava em estágio avançado de produção, ele foi totalmente revelado à direção da empresa. Ao assistir uma versão inacabada do filme, um alto executivo da Disney disse que em outra circunstância, ele jamais aprovaria aquela coisa, mas que amou o que viu ali. Então Lilo & Stitch veio ao mundo, com suas personagens de cor e corpos em formatos distintos, pessoas pobres e sem um traço de nobreza que supostamente as redimissem quando um hipotético príncipe encantado viesse salvá-las, nenhuma virada do destino que às tornasse ricas e poderosas… Apenas uma história de personagens meio maluquinhos com muita personalidade. Talvez a minha cena favorita seja quando a Lilo mostra a coleção de fotografias que ela tirou dos turistas gordinhos na praia, e diz: “eles não são lindos?”. Eu, como gordinho, me senti lisonjeado! Isso provavelmente só aconteceu porque o corroteirista e codiretor do filme, Dean Deblois, é um homem gay e gordo. Quem é dos memes certamente conhece o tipo, representado pela lenda local, Jailson Mendes, o urso grande, peludo e manso que partiu desta vida cedo demais, deixando-nos com saudades de seus berros e suquinhos de laranja. Pra quem não vive numa caverna, ursos são como são conhecidos os homens mais parrudos e peludos na comunidade queer.
Eis que algumas semanas atrás o usuário hardcore herbivore (@solr4ctg@hachyderm.io) postou um meme brincando com o tipo. A imagem consistia numa série de quatro fotos, sendo elas de três ursos reais (o animal), e um homem que se encaixava no biotipo supracitado, com um texto que dizia algo como: “ursos que estraçalhariam as suas entranhas”. Pra minha surpresa, a querida Lori (@lorimeyers@bolha.one), não só disse que achava o tipo urso bonito, como ainda me apontou como o seu espécime favorito.
Meu queixo foi parar no chão.
De fato, tenho sim o biotipo. Valeu a pena postar as fotos da academia, pois um elogio desses não tem preço! Muito obrigado, Lilo~digo, Lori!
Essa foi só mais uma maneira adorável que o Mastodon tem de me lembrar que ele é um cantinho muito especial dessa coisa feia que se tornou a internet tomada pelas big-techs. E foi nele que fui convencido não só da importância de retornarmos aos blogs de texto, como também foi onde conheci esta simpática plataforma.
Nos últimos dias, um bom amigo que eu fiz por lá tem andado meio fissurado pelo trabalho de Carl Gustav Jung. E a julgar pelo que ele tem me contado, aparentemente este texto narra um exemplo de um conceito proposto pelo psiquiatra suíço, que virou música pelas mãos do Sting e sua banda The Police. Ela se chama Synchronicity I, e a letra diz:
If we share this nightmare (se compartilhamos este pesadelo)
We can dream (podemos sonhar)
Spiritus mundi ([com uma] alma do mundo)
If you act as you think (se você age como pensa)
The missing link (o elo perdido)
Synchronicity (sincronicidade)
A connecting principle (um princípio de conectividade)
Linked to the invisible (ligado ao invisível)
Almost imperceptible (quase imperceptível)
Something inexpressible (algo inexprimível)
Science insusceptible (ciência insuscetível)
Logic so inflexible ([de] lógica tão inflexível)
Causally connectible (causamente conectável)
Nothing is invincible (nada é invencível)
Pois note a sincronicidade ursina: este espécime de urso, que chegou ao Fediverso pela Ursal, agora pode ser encontrado compartilhando seus pesadelos aqui no Bearblog!
Então:
Viva os blogs de texto!
Viva as redes federadas!
Viva a diversidade casualmente conectada!
Nothing is invincible!
Spiritus mundi!
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