Salvem os animais antropomórficos!
Nos últimos dias, algumas coisas que vi na internet têm alugado um triplex na minha cabeça. A primeira delas foi um post no Reddit em que uma pessoa comenta que baixou um aplicativo de encontros, e reparou que as pessoas tinham todas uma aparência bem específica, tanto homens quanto mulheres, o famoso “padrãozinho”. Até aí, nada demais. Só passei a dar a devida importância depois de ver um excelente fio no Mastodon, onde a autora fala sobre haters, inveja, modas, aceitação e felicidade, e um dos pontos que mais me chamou a atenção foi onde ela diz que “todo mundo anda meio broxa”, meio que levantando a hipótese de que ao buscarem parceiros “padrãozinho” (por ser algo mais socialmente aceito e até almejado), as pessoas estão buscando mais uma “aceitação”, elogios, ou mesmo provocar inveja em vez de procurar alguém que realmente seja “seu tipo”. Não sei quanto de verdade há nisso, mas é fato que eu tenho visto muitos posts no r/desabafos do Reddit de pessoas reclamando que seus parceiros parecem não os desejar, o que é algo bastante triste. Imagine uma pessoa gostar, por exemplo, de gordinhos/gordinhas, mas na hora de procurar um parceiro ou uma parceira, busca uma pessoa “padrãozinho” porque a sociedade e a mídia empurraram goela abaixo que ser gordo é ser feio e indesejável… Chuto que isso acontece com muito mais frequência do que se imagina.
Um dia após ler o tal fio, eu navegava pela home do Reddit, quando vi um post no sub r/EspiritoSanto em que uma pessoa fez uma pergunta singela e direta: ela queria saber sobre a comunidade furry no estado do Espírito Santo; se existe, onde se encontram... Como eu sou do mesmo estado, e vi uma matéria no programa Em Movimento (um programa da afiliada local da Globo que fala de cultura, lazer e turismo aos sábados) sobre a comunidade furry capixaba, entrei pra sugerir ao OP que procurasse pela matéria. Mas o que vi ao abrir o post me chateou. Comentários ácidos ridicularizando o autor da pergunta, com direito até a doses pesadas de capacitismo do mais absoluto nada. Tomei as dores do OP, e me dei o trabalho de responder (confesso que não da melhor forma) os comentários maldosos, dei downvote pra mostrar que aquilo era um comportamento inaceitável, e ainda os denunciei por discurso de ódio direcionado. Não só a moderação do sub não fez nada, como outras pessoas entraram no post para também ridicularizar o autor nos dias que se seguiram. Os comentários maldosos votados positivamente; os meus, negativados. Então é isso… percebi que ainda é perfeitamente aceitável disseminar ódio contra certos grupos de pessoas que não fizeram mal algum a ninguém, e nada será feito a respeito. Não há praticamente ninguém para lhes defender.
Mas eu preciso confessar uma coisa: eu também já fui “hater” de furries. Não sei se já espalhei esse ódio publicamente, mas é como dizem: o agressor esquece; a vítima, não. O que a gente não entende pode ser estranho. Ver adultos fantasiados de bichinhos multicoloridos e seus avatares online muitas vezes com um olhar lascivo me passavam uma sensação meio... eca. Eu tenho histórico de ser usuário de fóruns desde 2004, tendo começado no finado (graças a Deus) Fórum UOL, onde a “trollagem”, as brigas e eternas discussões acaloradas eram a norma. Não era diferente em vários dos outros fóruns por onde passei, e foram neles em que tive meus primeiros contatos – na maioria das vezes apresentado com viés bastante negativo – com conteúdos furry. São ambientes onde a bile sobe até a boca. No começo, pode parecer excitante, você está engajado em alguma questão, mas com o tempo você começa a perceber que aquilo é um veneno. Não era necessário um algoritmo para estimular o mau comportamento. A carência de atenção cumpria esse papel. Depois de anos nesse pique, tendo passado por várias crises de ansiedade e depressão, resolvi procurar por mares mais calmos. Então veio a pandemia e a campanha “fique em casa”. Eu fiquei. Com o tempo livre que tinha, resolvi tentar realizar um sonho: aprender a desenhar, um hobby que eu havia abandonado no fim da infância. Procurei cursos online, vídeos no YouTube, me dediquei, e segui artistas no antigo Twitter em busca de inspiração. Esses artistas não só divulgavam o próprio trabalho, mas também compartilhavam os trabalhos de terceiros. Não tardou pra começar a aparecer na minha timeline retuítes com obras que me fizeram perguntar: “pera, isso é... furry?!”. A pergunta se deu porque tais obras divergiam do que eu esperava de uma arte furry. Não havia a esperada alusão a putaria e, honestamente, eu jamais esperei ver aquele nível de humor, honestidade, sutileza, estilo e profissionalismo numa arte que até então eu considerava como uma espécie de fetiche esquisito. Então passei a seguir alguns desses artistas, e aos poucos fui notando que ser furry não significa necessariamente ser (ou apenas ser) "horny". Eu passei a entender que, pra minha surpresa, desenhos que eu amava, como BoJack Hoseman e Aggretsuko eram também obras furry! Que para ser furry, basta ser bicho e antropomórfico (ter características humanas). Oras, eu cresci assistindo Pernalonga, Tiny Toons, Animaniacs, Picapau, Tartarugas Ninja, Família Dinossauro… A diferença é que os furries não apenas consomem personagens prontos; eles os criam, e vivem suas criações. São as chamadas “sonas”, e uma sona não é como uma identidade de gênero, mas sim um alter ego.
Não é incomum ouvir a pergunta: “se você pudesse ser um animal, que animal seria?”. Pois bem, os furries levam isso um passo além. Pessoas tão comuns quanto a pergunta acima, e ainda assim, tão distintas. Pergunte-se: você está satisfeito com o estado das coisas? Imagine se você, em vez de se preocupar com os efeitos do capitalismo tardio na sua vida, cataclismo climático, e uma iminente terceira guerra mundial, pudesse se transformar um cachorrinho fofo que faz mlem mlem, ou um gato rechonchudo que faz blep blep? Furries recusam o apelo à nostalgia tão monetizada pelo capitalismo, com seus inúmeros remakes, reboots e sequels, optando por buscar isso criando algo novo, um apelo à simplicidade, inocência e liberdade. Sonas são como válvulas de escape.
Ao ter mais contato com a comunidade, percebi que ser furry é um ato revolucionário, e grande parte deles têm fortes inclinações anticapitalistas! Costumam ser pessoas interessantes, de bom intelecto, do tipo que faz o trabalho de manter as coisas funcionando sem serem notados. Vão do administrador do seu servidor, seu contador ao piloto do seu avião... Com o tempo, o injustificado asco que eu sentia se transformou em respeito e admiração por essa comunidade. Ser furry é se permitir ter uma pele onde se sinta confortável. Daí a grande adesão da comunidade LGBT e de pessoas neurodivergentes. Ser furry é dar um grandíssimo FODA-SE pro mundo.
Infelizmente, assim como acontece a associação de homossexuais e transsexuais à pedofilia, conservadores e até (pseudo) progressistas também maldosamente acusam os furries de serem zoófilos, mesmo que as estatísticas mostrem que os conservadores são absurdamente mais propensos de cometer tais atrocidades. É o caso onde toda acusação é uma confissão. Muitos avanços foram feitos no combate aos preconceitos nas últimas décadas. O principal campo de combate atual parece ser o das pessoas trans, e eu espero que você também esteja participando dessa batalha. O movimento furry ainda é algo muito novo, e eu não acho que apenas o conhecimento faria o problema desaparecer. É preciso bater de frente, haver resistência. Mas por enquanto, seguem sendo alvo fácil.
Vivemos numa sociedade que funciona a base de ódio, e ódio é um sentimento perigoso se descontrolado. A gente precisa aprender a direcionar o nosso ódio onde importa, a quem nos oprime e explora. O ódio de classe é um exemplo perfeito. Que o exemplo de ontem do povo húngaro seja apenas um de muitos.