Blog do DD ʕ´•ᴥ•`ʔ

Propaganda e a alma do negócio

A omissão do acento no "e" do título não é acidental.

Não é segredo que o Pentágono possui um departamento voltado para a indústria do entretenimento. E não, o Departamento de Defesa americano não o faz por amor à arte. Uma simples pesquisa na Wikipedia nos traz algumas citações interessantes, como por exemplo (em tradução livre): “a maneira mais fácil de injetar uma ideia propagandista na mente da maioria das pessoas, é deixá-la entrar por meio de uma fachada de entretenimento, quando elas não percebem que estão sendo manipuladas”. Pois é, Top Gun não se trata apenas de uma série de filmes de ação maneiros feitos com algum nível de apoio da marinha americana. São propagandas de guerra.

“Duh! Não é óbvio?!”

Sim, é. Mas e quando não é tão óbvio? Você já deve ter visto o famoso vídeo do escritor Ariano Suassuna falando sobre Indiana Jones. Mas você sabia que até mesmo produções aparentemente insuspeitas como Karate Kid e Contato têm a mão do Departamento de Defesa dos Estados Unidos? Isso acontece porque mensagem precisa ser sutil, e até parecer inofensiva. Muitas vezes a propaganda está escondida em lugares difíceis de se notar, como, por exemplo, na semântica. A tal da fachada de entretenimento…


Tenho os sitcoms como um dos meus formatos favoritos de TV. São programas leves, engraçadinhos, formulaicos, de episódios curtos. Dá pra assistir durante uma refeição, por exemplo. Passam a sensação de conforto, e caem muito bem no final de um dia estressante.

Procurei ativamente por esse tipo de conteúdo durante a pandemia da covid. Eram os anos Bolsonaro, o período mais tenebroso da história recente deste país. Todos nós precisávamos de conforto e alívio dos horrores da vida real, e um dos sitcoms que tentei assistir na época foi Parks & Recreations, uma série que acompanha Leslie Knope, uma loirinha meio tonta que trabalha no departamento de parques e recreações da fictícia cidade de Pawnee. Em seu entorno estão a amiga e enfermeira Ann e seu namorado Andy; ela a mais “normal” do bando, e ele um completo idiota; Tom, um colega de trabalho indiano que se esforça MUITO pra ser engraçado, provando que meritocracia é um engodo; Ron, um sujeito turrão que impõe medo em todo mundo, mas que na verdade é um ursinho de pelúcia; a apática e emburrada estagiária April, e Jerry, um senhor rechonchudo que está ali só pra ser alvo de piadas gordofóbicas, só pra citar alguns...

Um episódio que me chamou a atenção na série foi um em que um político local foi flagrado numa orgia regada a cocaína... em uma caverna… no Brasil. Porque não bastando a ideia do turismo sexual, associam-nos com drogas, e ainda lascam uma caverna pra dar aquele ar de “uga-uga”.

Outro episódio “interessante” foi “Sister City”, quando Pawnee recebe a delegação de uma cidade-irmã venezuelana. Os venezuelanos (interpretados por atores americanos) são todos homens fardados absurdamente rudes, ingratos, que fazem a nossa humilde Leslie engolir vários sapos para agradar aqueles estrangeiros arrogantes, até que no final ela se cansa das humilhações e resolve levantar a voz e dar uma boa lição civilizatória naqueles militaristas escrotos que se acham melhores que todo mundo!

Hmm…

Um terceiro episódio foi a gota d’água pra mim. A prefeitura da cidade descobre que está com as contas no vermelho. Eles então trazem auditores para ver onde podem cortar despesas, e o departamento de parques e recreações é um dos mais atingidos. Leslie obviamente fica revoltada, pois os recursos de seu departamento já são escassos. Ela demoniza os dois auditores durante todo episódio, até que no final ela tem a chance de conhecê-los melhor, e percebe que eles não são tão maus quanto ela pensava, e que austeridade é um mal necessário, um daqueles fatos da vida que a gente precisa aceitar, não é mesmo? Não sei como não pensaram em chamar a Leslie de Tina*...

Parks & Recreations escancarou pra mim o nível absurdo de propaganda servida em produções daquele país. Só aí temos vendido para nós a superioridade moral dos Estados Unidos em relação a países sul-americanos, e que neoliberalismo pode parecer ruim, mas é necessário. A partir de então, comecei a notar outros exemplos: em Seinfeld, todo personagem estrangeiro é retratado como estranho, a forma a depender da origem. Em Modern Family, apesar de personagens colombianos serem parte central da trama, seu valor está em terem se adaptado à cultura americana. Toda vez que a Colômbia é mencionada, há uma menção a drogas, violência, incivilidade...

Em geral, os latinos, quando não inteiramente assimilados, são retratados como sendo potencialmente perigosos ou de maneira sexualizada. Europeus são retratados como libertinos; pessoas do oeste e sul asiático como barulhentos e grosseiros, e por aí vai. Quanto mais afastado do american way of life, mais primitiva a pessoa é.

A propaganda pode ter diferentes formas, mas a mensagem é sempre a mesma: que os americanos são superiores, e se você quer ser respeitado, você precisa adotar seus princípios. E isso coloca todo mundo em risco: ou você (cidadão de qualquer outro país) está sob a mira de uma arma (literal, cultural e/ou econômica), ou você é americano e não tem nada a aprender e a evoluir; você é o ápice da civilização moderna! Daí você entende o porquê de muitos deles se acharem o centro do mundo, e não terem sequer noções básicas de geografia...

Não é minha pretensão, com isso, sugerir que as pessoas deixem de consumir produtos culturais daquele país. Nada contra os americanos; tenho até amigos que são! Eu mesmo sou apreciador de vários cantores, bandas, séries, filmes, jogos… É de lá, aliás, que vem uma das minhas séries de jogos favoritas, e que abriu os meus olhos pra essa questão: Civilization. Trata-se de uma série de jogos de estratégia por turnos onde o objetivo é levar o seu império à glória. Inicialmente pensei se tratar de uma espécie de versão eletrônica do jogo de tabuleiro WAR, mas logo descobri que havia muito mais profundidade ali. Assim como em WAR, você pode alcançar a vitória através da guerra, mas em Civilization, essa não é a única forma de se vencer uma partida. É possível subjugar outras nações através da ciência, da religião, e da cultura. “Como assim eu posso ter controle sobre outros povos apenas exportando a minha religião e a minha cultura?!”, eu me perguntei quando joguei Civ III pela primeira vez. “Oooh…”, foi o que eu disse após uma breve reflexão. Pois é, já falamos da cultura... Mas qual é a religião que mais cresceu no Brasil nos últimos 50 anos, que desenvolveu a sua própria indústria cultural, e que foi inventada e trazida diretamente dos Estados Unidos?

O resultado disso são brasileiros orgulhosamente usando peças de vestuário, adesivos e cheirinhos de carro com a bandeira ou símbolos de um país onde sequer são bem-vindos. O resultado está nas ruas, no congresso, nas câmaras municipais. O sonho do brasileiro médio é ser americano, com direito até a espetáculo bizarro de sabujo prestando continência à bandeira estadunidense, ou implorando para que eles nos invadam também militarmente. Bem, é só o que falta mesmo… Seu domínio cultural no Brasil é um fato, e o domínio espiritual também se consolida. Um domínio de quem nem gosta da gente, uma mão invisível que nos molesta. Parafraseando uma banda aqui da minha terra:

O sonho médio vai, vai te conquistar

E todo dia iremos juntos ao shopping pra gastar

Ter e sempre acreditar. Princípio, meio e fim

A hipocrisia vai vencer, vou sorrir pra você

Será uma festa em meio ao caos e as pessoas feias pagarão

Pois somos os eleitos, pelo menos achamos ser

Nossa raça é superior, mas vou fingir ser daquela cor

Roberto Campos é o nosso guru

E para sempre seremos liberais pra trabalhar, pra viver!

Não importa se meus filhos não terão educação

Eles tem é que ter dinheiro e visual

O sonho médio vai, vai te conquistar

Mentalidade de plástico e uma imagem a zelar