Blog do DD ʕ´•ᴥ•`ʔ

O dia em que eu escutei o silêncio

Não é à toa que Guarapari é o balneário mais procurado do Espírito Santo. De norte a sul do município, um desfile de praias absolutamente belas e únicas. A cidade em si, não é grande coisa; ruas apertadas, nenhum sinal de planejamento urbano… Regulamentações são apenas sugestões. Mas, confesso, esse ar meio “rústico” (tosco) talvez seja parte de seu charme...

Na segunda metade dos anos 1980, meu pai comprou um terreno e construiu uma casa no litoral norte do município, num bairro periférico, mas perto da praia onde passei alguns dos melhores momentos da minha vida. Na baixa temporada, pode parecer uma cidade-fantasma (pessoalmente eu gosto do clima bucólico, de não ter que brigar por um espaço na sombra de uma castanheira, ou de não ter um boçal estourando meus tímpanos com músicas de qualidade questionável), mas era na alta temporada que a diversão acontecia.

Por muitos anos, minhas férias escolares e carnavais se resumiam a acordar, tomar o café da manhã, passar protetor solar, ir para a praia, brincar e conversar com os amigos, tomar banho de mar, chupar picolé, e depois ir para casa na hora do almoço. Depois de encher a pancinha, eu jogava meu Mega Drive até o meio da tarde (aquela casa me remete especialmente a Sonic 2 [foi lá, numa televisãozinha paraguaia de tela minúscula onde eu o zerei pela primeira vez!], Carmen Sandiego, e um jogo obscuro da EA que talvez ninguém mais lembre, chamado BOB). Às vezes a jogatina era em outra casa por ali, com um amigo ou primo, onde me diverti jogando Super Mario World, Mario Kart, Donkey Kong 3, Top Gear 1 e 2, Battletoads, Road Rash, etc. A jogatina também podia ser analógica, geralmente War ou Jogo da Vida, ou até Super Trunfo! Às vezes fazíamos trilhas pelos morros da região, íamos a praias quase inacessíveis de águas límpidas e geladas, ou praticávamos bodyboard, futebol, uma espécie de tênis de areia que eu inventei e, de noite, após o banho e a janta, a turma se reunia na rua pra conversar até tarde da noite. E, às vezes, algum adulto resolvia passear por outras partes da cidade; outras praias, feira hippie, parque de diversões, ou pra cair matando num podrão em uma lanchonete qualquer...

É, a vida já foi bela…

Os amigos cresceram, constituíram família, tiveram filhos; a casa foi vendida… Tudo isso agora é coisa do passado. Mas Guarapari segue sendo uma cidade tão incrível quanto horrível! De quase todo lugar, seja de uma praia paradisíaca ou de uma importante avenida com a espessura de uma viela, é possível observar a serra que se aproxima do mar, com alguns cumes chegando a quase 800 metros de altura. Pode parecer óbvio, mas nem todo mundo sabe que o município, além de um belo balneário, também possui uma zona rural bastante simpática, em especial a região de Buenos Aires, que foi destaque no Esporte Espetacular por conta da versão local do “Argentinão” realizada por lá.

Certa vez meu pai resolveu levar o seu irmão até lá pra tomar umas breja~digo, pra conhecer o lugar, e eu e um primo aproveitamos a deixa e fomos de carona. Após atravessar a BR 101, o terreno começa a se tornar mais irregular e rural. Algumas pontes sobre riachos, e de repente uma subida íngreme e sinuosa nos leva serra acima.

Lá no topo, o calor já se torna mais ameno, e apesar de estarmos a poucos quilômetros de algumas das praias mais estimadas da região sudeste, a sensação é interiorana. Paramos diante de um boteco vasto, uma construção claramente antiga. Na frente do imóvel, sob a sombra de castanheiras, uma piscina de água corrente onde várias pessoas se refrescavam, e onde meu primo e eu nos enfiamos enquanto meu pai e meu tio tomavam suas cervejinhas. Era uma piscina de cimento relativamente comprida, encravada na terra, por onde a água de um riacho caía de um lado e escorria pelo outro. Passado algum tempo, e depois de um salgado + refri, decidimos pegar o caminho de volta. Porém (e de maneira surpreendente, visto que ele não costuma ser uma pessoa de improvisos), meu pai sugeriu pegar um desvio e visitar um distrito ainda menor e mais isolado, onde ele passou seus primeiros anos de vida. A estrada de terra batida subia um morro, que nos levou até um minúsculo vilarejo. Algumas casinhas salpicando a encosta e, mais alto, uma igrejinha de aparência muito rústica, parcialmente coberta por uma árvore gigantesca e com um cemitério nos fundos. Por trás da igreja, o morro continuava subindo, coberto por uma mata densa. Então, por um lado, o vilarejo era protegido pelo morro alto coberto de mata nativa e, do outro, a majestosa vista de um grande vale. Mas não foi a paisagem o que mais me chamou a atenção. Por algum motivo, o vilarejo estava completamente deserto! A igreja e as casinhas todas fechadas, nenhuma alma viva além de nós. Não lembro de ter visto sequer um cachorro ou gato, ou mesmo um camundongo! Naquele lugar, pairava o mais absurdo silêncio. A única coisa que o interrompia era o distante som das trovoadas de uma tempestade de verão que se aproximava por trás do morro.

Talvez você pense que eu seja só um bocó que nunca tinha ido pra roça antes. Você acertou na parte do bocó, mas roça não era novidade pra mim! Era tradição, por exemplo, minha família ser convidada a passar um fim de semana para festejar São João no sítio de uma família de amigos, quando então eu aproveitava para passear com minha câmera pelas isoladas estradinhas de terra da região em busca de cliques. Eu já havia apreciado o silêncio. Mas o que aconteceu em Guarapari foi diferente. Não era como uma cena em que os bandidos chegam a um vilarejo em um faroeste, com os habitantes trancados em suas casas, as portas e janelas fechadas. Não. Era uma ausência quase transcendental, naquele lugar pequeno o bastante para parecer um fim de mundo, cercado por uma vastidão cósmica que me fazia sentir diminuto, suspenso numa etérea mistura de paz e terror.

Eu nunca soube o que tirar dessa experiência. Talvez eu seja pequeno demais para entender, ou talvez eu enxergue grandeza em algo provavelmente pequeno. De todo modo, foi algo grande para mim, pois esse tio que nos acompanhava hoje luta contra um câncer, e seu estado não inspira muita esperança. Como ele mora em outro estado, não tenho muitas memórias dele. Então guardarei esta com carinho. Considere este post como um backup dela.

Em tempo, consegui encontrar duas fotos do local que mencionei acima, upadas no meu Flickr no longínquo ano de 2009, agora re-upadas no meu Pixelfed. Você pode vê-las aqui.