Hoje eu perdi o ônibus... Graças a Deus!
Há quem diga que nada acontece por acaso. Não posso afirmar que sou dessa crença, mas às vezes uma sequência de eventos aparentemente arbitrários estranhamente parece fazer sentido.
Eu sempre fui um sujeito muito passivo, inseguro e sem muita atitude. Não me orgulho disso. Ontem, voltando de bicicleta da academia, passei por uma pracinha, e um barulho de correntes chamou minha atenção. Olhei para o lado e vi dois meninos pequenos em cima de uma espécie de casinha no topo de um brinquedo com escorregadores, um deles se esticando perigosamente pra fora para alcançar um balanço que estava enrolado na haste. A princípio, pensei que eles os estivessem enrolando, mas não pareceu fazer muito sentido, considerando onde eles estavam. Só podiam então estar desenrolando, o que me fez perguntar: por que eles estavam enrolados? Estavam quebrados? Apresentavam algum risco às crianças e por isso foram “tirados” de ação? Ou será que alguém enrolou os balanços por babaquice?
Bom, eu sou um adulto alto e minimamente responsável. Eu mesmo poderia desenrolar os balanços e verificar se eles eram seguros! O problema é que eu pensei demais enquanto pedalava, e quando me dei conta, já estava relativamente afastado do local. Deveria voltar e ser o “herói” daquelas crianças? Alguém acharia estranho um homem adulto dar a volta pra falar com duas crianças aparentemente desacompanhadas? Melhor deixar pra lá e torcer pra que eles ficassem bem, ou que outra pessoa os ajudasse. Foi então que me dei conta de que havia caído no chamado “efeito espectador”, que versa sobre a apatia e sensação de difusão de responsabilidade no caso de haver outras pessoas assistindo uma determinada situação de emergência. E confesso que me senti mal. Eu poderia ter sido o bem que eu quero ver no mundo, e me recusei. Disse pra mim mesmo que deveria deixar de ser assim…
Eis que hoje me peguei – por pura distração – atrasado para sair para o trabalho. Engoli o café da manhã e mudei de roupa o mais rápido que pude, catei o que tinha de catar, e saí de casa uns dois ou três minutos atrasado. Foi o suficiente para perder o meu ônibus, cujos horários não são nada confiáveis.
Estava eu no ponto de ônibus esperando pelo próximo, no lugar de costume, na sombra de um poste, de frente para o portão automático da garagem de um condomínio. Esse portão fica recuado paralelamente a um muro alto da casa ao lado, cuja calçada é o ponto de ônibus. Às vezes preciso dar uns passos para o lado para dar passagem para os carros que saem por esse portão, descendo a rampa. Isso aconteceu por duas vezes hoje. Da primeira, sem incidentes. Mas da segunda vez que ouvi o portão se abrir, saí de novo da frente, e enquanto fazia isso, notei uma moça vindo pela calçada com um garotinho da mesma idade daqueles que tentavam desenrolar o balanço no dia anterior. Apesar do sistema de alerta piscando e apitando “piii-piii-piii-piii-piii”, ambos pareciam completamente alheios ao perigo. Falei (não sei se com muita ênfase): “pera aí, calma, calma, calma!”, o que foi o mesmo que nada. Estavam completamente desatentos. Como eu estava disposto a não ser mais tão apático, estiquei o braço pra trás, com a mão espalmada no peito do menino, fazendo-o parar imediatamente, no exato instante que um SUV desceu a rampa (em velocidade até um pouco imprudente, considerando que a saída para a calçada à esquerda é completamente cega), passando a centímetros do nariz do garoto. A moça, que suponho ser a mãe, agradeceu, apesar do susto. O SUV seguiu seu caminho como se o motorista, em sua posição elevada de condução, sequer houvesse notado o que havia acabado de acontecer.
Não fosse pela cena do dia anterior e o consequente mal-estar que senti, eu não teria feito o que fiz hoje.
Graças a Deus eu perdi o ônibus...