Blog do DD ʕ´•ᴥ•`ʔ

Eles ainda estão aqui

Faz um tempo que assisti ao filme Ainda Estou Aqui, mas só hoje resolvi falar sobre algo que me incomodou profundamente. Devo ter sido uma das últimas pessoas a assistir; vi só algumas semanas depois do Oscar, pela Globoplay. E sabendo que o filme fora laureado pela maior premiação do cinema, esperei me maravilhar com um filme de cinematografia impecável, e me encantar com a atuação estupenda de Fernanda Torres. Sim, eu também esperava que o filme seria uma porrada, um verdadeiro soco no estômago. Eu esperava chorar e me compadecer com a trágica história da família Paiva. O que eu não esperava, era terminar o filme PUTO.

A história do filme se passa em três anos diferentes. A primeira parte – e a mais longa – acontece em 1970 (ou 71? Faz um tempinho que assisti, então não tenho certeza…), quando o seio daquela família é rasgado por um golpe de violência descomunal. A primeira parte do filme nos revela uma família grande e feliz, de mesas fartas, atividades diversas, muita música e visitas de amigos e sorrisos largos. A brutalidade do regime militar se faz presente desde cedo na história, primeiro como um espectro assustador; depois, como sequestradores, torturadores e assassinos. O filme, até então alegre, sofre uma virada sombria. A característica mais marcante de qualquer governo fascista é a identificação de inimigos, e o direito autoconcedido de se praticar todo tipo de violência contra esses supostos inimigos, sem qualquer apreço ao devido processo legal e aos direitos humanos.

“Quando os nazistas levaram os comunistas, fiquei em silêncio; eu não era comunista…”

Acho que quase todo mundo conhece o poema atribuído ao pastor luterano Martin Niemöller (mas a autoria eu confesso que tive de pesquisar). Punitivismo penal é sempre um assunto em voga no Brasil. Muitos defendem que bandidos devem ser mortos, que não devem ter direito a advogados e julgamentos, sem entender que o direito existe não para proteger bandidos; mas sim a nós mesmos! Não à tôa que uma das principais medidas impostas pelo Ato Institucional nº 5 (popularmente conhecido como o AI5), em 1968, foi a extinção do habeas corpus. Desta forma, bastava que algum membro do estado não fosse com a sua cara por qualquer motivo, que ele se via no direito de te sequestrar, torturar e matar. Foi o que aconteceu com a família Paiva, levado até as últimas consequências no caso de Rubens. Eunice, sua esposa, parte em uma desesperada busca pelo marido assim que retorna da longa sessão de tortura da qual também foi vítima. Uma violência tão brutal e profunda que retira daquela família não só o pai, mas também a alegria, o dinheiro, e até mesmo a casa.

Eunice volta para São Paulo com os filhos. Vai morar de novo com os pais, e lá inicia os estudos em direito, formando-se advogada. Com esse “poder” em mãos, Eunice se torna ativista pelos direitos humanos, com destaque na defesa dos povos originários, e luta também pelo reconhecimento da morte do marido pelas mãos do estado. A essa altura, o filme avançou para o ano de 1996. Eu vi alguém falando (não me recordo quem) que o filme deveria ter acabado na cena em que Eunice insere o atestado de óbito do marido na pasta em que guardava todos os documentos referentes ao caso, encerrando aquele longo e doloroso capítulo de sua vida. A explicação da pessoa que fez tal afirmação sugeria que a cena final, que se passa em 2014 (acho), só existiu pra inserir a lendária Fernanda Montenegro no filme, interpretando uma Eunice mais velha e afligida pelo Alzheimer. Meu Deus do céu, eu não poderia discordar mais! A cena final de 1996 seria, sim, uma boa cena pra encerrar o filme, disso eu não discordo. Já a cena de 2014 mostra uma família grande e feliz, de mesas fartas, atividades diversas, muita música e visitas de amigos e sorrisos largos. E mais do que isso: mostra que foi somente no governo da época (da Dilma, outra sequestrada e torturada pelos militares), através da Comissão da Verdade, que o estado, por meio de suas forças militares, reconheceu-se como o assassino de Rubens Paiva. E com isso o filme, baseado em uma história verídica, se encerra... A história, porém, prosseguiu. É duro saber que o governo que reconheceu o papel do estado no assassinato de cidadãos inocentes durante a ditadura foi derrubado justamente por tentar realizar tal reparação. Dilma sofreu um golpe, Lula foi preso por conta de acusações sem provas por um juiz que aceitou um cargo de ministro do homem que ele ajudou a eleger. E não foi surpresa pra qualquer pessoa com mais de dois neurônios que um governo de bandidos e golpistas não poderia ser nada além de desastroso. Nesse meio tempo tivemos a Vaza Jato, a pandemia… Perderam a eleição seguinte, e tentaram um novo golpe, com planos de assassinato já postos no papel.

É por isso que eu terminei o filme puto. Aquela história ainda não terminou. Esses canalhas ainda estão por aí...