Blog do DD ʕ´•ᴥ•`ʔ

As crianças não estão bem

Observação: este post contém spoilers da minissérie Adolescência, da Netflix.


Depois de ver vários criadores de conteúdo e pessoas que eu sigo comentando a respeito, resolvi assistir a minissérie do momento: Adolescência. Os episódios, que variam de cinquenta e um minutos a uma hora e cinco de duração, são todos gravados em plano-sequência. Do primeiro ao último frame, a ação é sem cortes. Não que isso seja uma novidade. No cinema, temos o exemplo de Birdman, do meu diretor favorito da atualidade, o mexicano Alejandro G. Iñárritu; e o também excelente 1917, do aclamado diretor britânico Sam Mendes. Adolescência, porém, parece levar isso a um novo patamar, e eu não estou dizendo isso apenas pra exaltar a qualidade técnica da série. Na verdade, a forma como a história é contada é tão importante quanto a história em si.

Se no primeiro episódio fica estabelecido que Jamie, um menino de 13 anos, é o assassino de sua colega de classe Katie, o segundo – que se passa na escola onde estudavam – revela uma barreira geracional quase intransponível, que só é superada quando o filho do detetive Bascomb explica para o pai o real significado de interações que aconteciam pelo Instagram entre a vítima e o assassino. Jamie era alvo de bullying por parte de Katie. Bascomb se apressa para contar a novidade para sua parceira de trabalho, a detetive Frank. A Sra. Fenumore, diretora da escola que os acompanhava, diz não entender sobre o que falam, e a detetive Frank explica com a frase: “é o lance do celibato involuntário, a palhaçada do Andrew Tate”, citando nominalmente um dos maiores expoentes da doutrina red pill na internet. O terceiro episódio, por sua vez, é um exemplo prático do estrago que essa ideologia faz com a cabeça de um jovem. Em certo ponto, após vários acessos de fúria, Jamie diz que tudo começou quando ele convidou Katie para sair após a menina ter virado piada na escola por conta de um nude vazado, porque segundo ele, Katie estaria fragilizada e, portanto, mais fácil de “pegar”. O episódio deixa claro também que a masculinidade tóxica não é monopólio da doutrina supracitada, com a marcante presença de um repugnante agente carcerário que a todo instante tenta flertar com a psicóloga que protagoniza o capítulo. Já o quarto e último episódio exemplifica o impacto disso na vida de inocentes. No fim, não é só um garoto que perde a liberdade, e uma menina que perde a vida. Famílias inteiras são brutalizadas, e a sociedade como um todo, perde. O mundo é um lugar pior com os red pills e a masculinidade tóxica.

Adolescência é uma série angustiante do começo ao fim. O curioso é que um dos raros momentos de alívio (se é que dá pra chamar aquilo de alívio) acontece perto do final. Se nos três primeiros episódios Jamie nega que tenha feito qualquer coisa de errado, no último, que se passa mais de um ano depois do primeiro, em ligação telefônica com a família, ele diz que pensa em se declarar culpado no julgamento vindouro, o que deixa sua família sem palavras. Mas o que poderia ser dito, afinal? Se há algo a se comemorar, está no fato de que o garoto, agora com 14 anos, está amadurecendo. Mas isso não vem sem um preço. Se Jamie começa a compreender o peso de seu crime, isso significa que quando o cometeu, ele não compreendia. Resta aos pais carregarem consigo essa culpa. Por mais que tenham sido bons pais, sem jamais ter negligenciado a educação e o desenvolvimento dos filhos, é impossível ter ciência de tudo que acontece com eles. E foi justamente num momento em que não estavam olhando que essa ideologia macabra adentrou a psique de Jamie, através de seu computador. Computador esse comprado pelos pais do garoto. Como então eles poderiam não se sentir culpados? Talvez alguém diga que os pais precisam instruir e preparar o seus filhos, mas como ficou claro no segundo episódio, com o detetive Bascomb, existe uma barreira enorme entre as novas gerações, e as anteriores. Pessoas relativamente jovens como Bascomb e Frank sequer foram capazes de interpretar o teor do diálogo que acontecia entre Katie e Jamie no Instagram.

Eu me lembro que foi exatamente nessa idade, aos 14 anos, que eu comecei a ter um pouco de noção das coisas; que eu precisava pensar antes de falar ou de agir. A ciência diz que o cérebro humano continua a se desenvolver até por volta dos 25 anos de idade. Até lá, o cérebro não está completamente formado. É por isso que existem leis contra o trabalho infantil, a proibição do sexo com menores de idade, idade certa pra se abordar certos temas, desde matemática até educação sexual nas escolas, idade mínima para se consumir certas substâncias… O cérebro precisa estar desenvolvido pra que seja capaz de processar certas coisas. Não adianta, por exemplo, tentar explicar por que você não pode comprar aquele item caro que a criança tanto quer a ponto de fazer pirraça na loja. Ela simplesmente não tem a cognição para entender! Quando matou Katie, Jamie não tinha real noção do que fizera. Isso não quer dizer que ele não tenha culpa, mas no fim das contas, ele era só uma criança. Então quem mais é culpado pelo que aconteceu? Quem colocou na cabeça de Jamie que meninas fragilizadas são mais fáceis de se “pegar”?

Outro dia comentei no Mastodon o meu choque ao descobrir que essa é uma tática comum entre os red pills. Segundo a crença, jogar a autoestima das garotas no chão as tornam presas mais fáceis, seja pra “pegar”, seja pra controlar num relacionamento. Algum folgado talvez diga que Katie também não era nenhuma santinha, mas eu pergunto: quem naquela maldita escola é?! É claro que Adolescência é uma série de ficção, mas os temas ali abordados são muito reais, e o brilhantismo de sua execução técnica a transformou num fenômeno cultural.

Os red pills, incels, MGTOWs e sei lá mais o que caralhos dessa cruzada anti-woke estão por aí, divulgando essa doutrina doentia com milhões gastos em posts patrocinados, produtoras de filmes e serviço de streaming como a Brasil Paralelo, grandes canais de games no Youtube como Central Xbox e Zangado, enchendo a cabeça da molecada de ódio. A extrema direita é perniciosa. Monark começou como streamer de Minecraft, e terminou foragido da justiça após defender a existência de um partido nazista no Brasil. Pra qualquer um que aponte o perigo desse tipo de gente, a resposta é sempre “tentativa de censura” e “liberdade de expressão”. Liberdade de expressão se tornou o escudo dos canalhas.

Mas a culpa é só deles? E as empresas que os patrocinam? E quanto às plataformas que não apenas os hospedam, mas também os monetizam, cujo algoritmo é feito para projetá-los ao mundo? Pra mim, o problema está no sistema que não só permite esse tipo de coisa, mas também o premia. Basta olhar o mundo corporativo. A maldade é recompensada, e a bondade é punida. Nas palavras do homem mais rico do mundo, idolatrado pelos red pills, e dono do X, Elon Musk: “empatia é uma fraqueza fundamental da civilização ocidental”. É uma frase interessante de se analisar. A primeira metade é óbvia: bilionários criam essa persona “implacável” pra justificar o assalto que cometem contra o mundo todos os dias. Querem que você acredite que não é que eles alteram as regras do jogo com muito lobby, comprando políticos e investindo em operações psicológicas pra fazer com que o sistema os favoreça. É que eles “trabalham mais que qualquer um”, são “mais inteligentes que qualquer um”, que sua fortuna é “consequência de muito esforço individual”. E o pior é que Elon realmente parece acreditar nisso, vide suas óbvias inclinações eugenísticas, e sua crença de que possui genes superiores, mesmo parecendo uma ricota que foi pega rolando no chão de uma barbearia. O gesto nazista só surpreendeu quem não o conhece. A segunda metade da frase confirma a tese. O uso de “civilização ocidental” implica primeiro numa divisão; depois, coloca a divisão onde ele (Elon) se coloca como moralmente superior, por ter a tal da fraqueza chamada “empatia”, algo com o qual ele acredita lutar contra todos os dias. Sim, a empatia das cruzadas, do tráfico negreiro, do genocídio dos povos originários, dos inúmeros golpes e assassinatos políticos durante o século XX e XXI, do Apartheid (do qual a família Musk se beneficiou diretamente), etc. Se a coisa não parece fazer muito sentido, é porque não faz. Não se trata de lógica. Se trata de controle, da manutenção de privilégios. Vendem a nós uma guerra cultural, onde os responsáveis por todos os problemas do mundo são os LGBTs, o feminismo e os imigrantes; que sua vida está pior porque filmes e jogos de videogame agora têm mulheres com agência como protagonistas. Tudo é "lacração". E tudo isso para desviar o foco dos verdadeiros inimigos: os bilionários. Vale lembrar que Elon Musk desbaniu a conta de Andrew Tate após ter comprado o Twitter. Não é segredo também que sua plataforma promove ativamente discurso de ódio, e se tornou terreno fértil para a proliferação de contas nazifascistas. Se essas plataformas podem manipular a política de países em benefício próprio para seguirem inimputáveis, tornando sua regulamentação improvável, o que se pode fazer então? Honestamente, eu não sei. Eu gostaria de pensar que é tão simples quanto substituir o Twitter pelo Mastodon, o Instagram pelo Pixelfed, o textão de Facebook pelo textão de blog ou no Friendica, etc. É importante que cada um faça a sua parte, mas é claro que não é tão simples assim. Jamie pode ser só um garoto, mas o segundo episódio – o da escola – deixou claro que o problema é muito maior.