A Nova Guerra do Ópio
E se eu te dissesse que você é o alvo principal em uma guerra que está sendo travada? Fique comigo até o final do texto que eu te conto...
Uma coisa que eu costumo ouvir de pessoas que visitam a China, é que o país “vive em 2050”. Os grandes arranha-céus espelhados, os imensos parques públicos, os trens-bala, as ruas tomadas por carros elétricos de última geração, robôs… tudo isso é muito impressionante, mas não me impressiona. Ouso dizer que a China está no ano de 2026 mesmo. Nós que ainda estamos no século XIX. Explico…
O século da humilhação é como os chineses se referem ao período em que a nação foi alvo de constantes ataques de potências imperialistas da época, como o Japão, os Estados Unidos, a Grã-Bretanha, a Rússia e a França, entre os anos de 1839 e 1949. E um dos ataques mais covardes que o país sofreu, hoje recebe o nome de guerra do ópio, o período quando a população chinesa foi deliberadamente viciada em ópio pelo exército inglês.
Com uma população e forças militares completamente rendidas pelo vício em uma poderosa substância, a China pouco pôde fazer além de assistir de joelhos suas riquezas sendo saqueadas. No começo do século XX, porém, a história toma outro rumo. Em 1911, a República da China é proclamada, o que afundou ainda mais o país em conflitos internos, que se acirraram a partir de 1921, com a fundação do Partido Comunista Chinês, que visava a reforma agrária e a melhoria de vida dos camponeses. Nacionalistas e Comunistas lutaram até 1937, quando o Japão mais uma vez avançou sobre o país, forçando ambas as facções a se unirem para expulsar a ameaça invasora, no que ficou conhecido como um dos campos de batalha mais sangrentos do que viria a se tornar a Segunda Guerra Mundial. Com o fim da Segunda Guerra, comunistas e nacionalistas voltaram novamente suas armas uns contra os outros, com a culminação da vitória dos comunistas ocorrendo no ano de 1949. Demorou cerca de meio século para o Partido Comunista Chinês conseguir reerguer essa nação milenar ao posto de superpotência mundial, e pra dar a dimensão do buraco em que o país se encontrava antes, em 1991 – ano em que vivíamos o tenebroso governo Collor no Brasil, com o confisco das poupanças e a hiperinflação – o produto interno bruto brasileiro ainda era superior ao chinês, mesmo que a população brasileira fosse quase oito vezes menor que a chinesa.
Durante a minha infância e adolescência, muito escutei sobre as terríveis condições de vida e trabalho na China. Hoje o país goza de uma economia vibrante, a segunda maior do mundo, tendo tirado mais de 800 milhões de seus cidadãos da miséria. Mas como eles conseguiram isso?
O CHÃO DE FÁBRICA DO MUNDO
Chamou a atenção, nas Olimpíadas de Pequim, em 2008, a instalação de painéis de LED que exibiam filmagens do sol, já que o céu da cidade era tão poluído que mal se conseguia enxergar o astro. Hoje os céus das cidades chinesas estão muito mais limpos graças em grande parte à substituição da sua frota de automóveis à combustão por veículos elétricos, e também ao investimento pesado em geração de energia limpa. Mas a história não começa aí. Ela começa quando muito sagazmente o governo chinês percebe uma falha fundamental no sistema capitalista: a ganância. E para entender isso, precisamos ir até o outro lado do mundo: os Estados Unidos da América.
Os Estados Unidos entraram no século XX com uma economia vigorosa, e isso se deveu não só aos avanços imperialistas na forma de saques, golpes, guerras e genocídio (ver Doutrina Monroe, Guerra Mexicano-Americana, Marcha Para O Oeste e Destino Manifesto), mas também ao petróleo e a escolha deliberada pelo protecionismo em seu mercado interno, inviabilizando as importações de produtos estrangeiros, o que obrigou o país a se industrializar. Mas a crise de 1929 colocou esse sistema numa encruzilhada, que se aprofundou com o fim da Segunda Guerra e a ascensão da União Soviética como uma superpotência, e o socialismo como movimento socioeconômico.
Pergunte a um americano sobre quais foram os tempos áureos daquele país, e ele provavelmente responderá que foram os anos 1950. Foi a era do sonho americano! Um homem comum com um emprego de 9 às 5 podia comprar uma casa, um carro, sustentar a esposa e seus três ou quatro filhos, e ainda viajar pelo menos uma vez por ano. Isso não aconteceu por acaso. Foi um esforço deliberado para demonstrar que o capitalismo era capaz de prover qualidade de vida superior ao que se via em países socialistas. Para que isso fosse possível, a elite econômica do país aceitava pagar valores em impostos que hoje seriam considerados absurdos, e a distribuir melhor os seus lucros entre os trabalhadores. Havia efetivamente um esforço de transferência de renda de cima para baixo, do rico para o pobre, para que fosse criada uma classe média pujante e vivaz. E para garantir que a mensagem fosse transmitida, investiu-se muito em propaganda e cultura, dando aos Estados Unidos uma imagem de quase um paraíso na Terra, a “terra da liberdade”, o país onde se prospera com o trabalho. Algo similar foi colocado em prática na Europa, na forma da social-democracia.
Mas não só os mais abastados tiveram de pagar essa conta. Se a vida era boa na Europa ocidental e na América do Norte, a coisa era bem diferente na Ásia, África e América Latina. Para impedir que revoluções socialistas continuassem acontecendo, os Estados Unidos instigaram e apoiaram diversos golpes de estado, aplicaram bloqueios comerciais, operações de sabotagem, assassinatos, e até se envolveram em guerras diretas. O mesmo país que falava em princípios da liberdade agora se prostrava contra a autodeterminação dos povos de cada país. O mesmo país que se desenvolveu com medidas protecionistas e desenvolvimentismo agora demandava que todos os países abrissem suas fronteiras para os seus produtos, e qualquer nação que não se sujeitasse ao “livre mercado” era automaticamente adicionada à lista de nações inimigas da América e da liberdade.
Mas a bonança do cidadão médio americano e europeu não poderia durar para sempre. Se o golpe de estado chileno serviu de laboratório para o Neoliberalismo, nos anos 1980 o modelo econômico do arrocho finalmente chega aos Estados Unidos e à Europa. E com a derrocada da União Soviética, a máscara caiu de vez. Era o começo do fim do sonho americano…
O GRANDE SALTO
Quando um rico aparece dizendo que “toda crise é uma oportunidade”, ele está falando na facilidade de extrair riqueza de gente famélica. E de gente famélica a China estava cheia... Foi então que o governo chinês teve uma ideia: o país precisava se industrializar, e o que não faltava eram terras, recursos e mão de obra extremamente barata e sujeita a encarar rotinas de trabalho que muitas vezes exauriam até a morte. E foi assim que o gigante asiático sacrificou uma geração inteira para atrair para dentro de suas fronteiras o parque industrial estadunidense. Para o empresariado americano, era uma oferta irrecusável; uma pechincha! E enquanto os Estados Unidos viram a sua indústria pesada se transformar no que hoje é chamado de o Cinturão da Ferrugem, a China não só atraiu investimentos, mas sabiamente exigiu transferência de tecnologia, ao mesmo tempo em que enviou diversos de seus estudantes para aprender nas melhores universidades do mundo (num programa similar ao nosso finado Ciência sem Fronteiras) e através de políticas e investimentos de estado de longo prazo, desenvolveu suas próprias gigantes. Se antes um Made in China significava cópia barata de baixa qualidade, hoje nos deslumbramos com BYDs e Xiaomis…
Mas se a China abriu o seu pátio industrial para as empresas americanas, o mesmo não pode ser dito sobre sua internet. Muito se ouve falar sobre a censura do governo chinês, e os ataques à liberdade de expressão. De fato a China tem um péssimo histórico nesse ponto, vide o rastro de mortes deixado por sua revolução cultural. Mas vamos dar uma olhada breve sobre o que convencionou-se chamar de big techs, os grandes players desse mercado…
Qualquer pessoa acima de 30 anos que tem minimamente prestado atenção aos noticiários de 2012 pra cá ouviu falar de WikiLeaks, Julian Assange, Edward Snowden, Cambridge Analytica. Também deve se lembrar das inúmeras mega-manifestações “espontâneas” e revoluções coloridas que ocorreram desde a ascensão do Facebook, Instagram, WhatsApp, YouTube, e X (o antigo Twitter). Qualquer brasileiro que esteve nessas redes nos últimos quinze anos vou a ascensão de movimentos como o Vem Pra Rua, Revoltados Online e MBL, esse último tendo lançado candidaturas de seus membros, e até partido próprio. A ascensão do bolsonarismo no Brasil, do trumpismo nos EUA, e da extrema direita em todo o mundo não é mero acaso. De 2016 pra cá, toda eleição de um país é a eleição mais importante da história. Cada pleito é a escolha entre um centrista moderado e um fascista; a escolha entre o status quo ou o desvario alucinado. Se antes os argumentos geravam em torno de programas sociais, impostos, privatizações, segurança, saúde, educação, saneamento básico, alimentação e contas públicas, hoje não é incomum ouvir candidatos falando sobre “ideologia de gênero” e transsexuais em banheiros públicos. O mesmo sistema que nos entrega um status quo em desgraça, nos oferece algo ainda pior em troca, e não é de se estranhar que a população opte pela mudança.
O brasileiro é o povo que passa mais tempo na internet em todo o mundo. Passamos o dia rendidos, rolando feeds de redes sociais, viciados em dopamina da mesma forma como chineses foram viciados em ópio no passado. Porém, a droga do século XXI é mais poderosa, pois não apenas nos deixa em estado letárgico; ela manipula nossas mentes, e ela o faz de maneira bem engenhosa.
Todo grande veículo de imprensa privado pertence a um bilionário, e um bilionário não faz esse tipo de investimento por amor ao jornalismo e à teledramaturgia. Um homem muito sábio certa vez disse que "as ideias da classe dominante são, em cada época, as ideias dominantes". Eles o fazem porque a imprensa sempre foi um poderoso instrumento de manipulação das massas. Mas com as redes sociais e as inteligências artificiais, isso toma uma dimensão inteiramente nova. Se antes a mensagem precisava ser genérica para atingir o maior número de pessoas possível, hoje as empresas de tecnologia possuem perfis altamente individualizados para cada cidadão do planeta, até mesmo de quem sequer faz uso de tais serviços.
Muito se fala dos algoritmos e bolhas. Com suas curtidas, seguidas, bloqueios, postagens e comentários, uma empresa como a Meta (a dona do Instagram, Facebook e WhatsApp) coleta informações dentro e fora de suas redes, e registra um perfil individual para cada pessoa. Eles sabem a sua idade, o seu sexo, seu nível de escolaridade, a sua orientação sexual, espiritual, o seu posicionamento político-ideológico, o que você consome, o seus hobbies, os seus preconceitos, o que você gosta e o que você não gosta, com quem você se relaciona, quais lugares você frequenta, etc. E dessa forma, sem que o percebamos, ela consegue direcionar conteúdos capazes de atacar os pontos fracos da nossa psique. Embora se fale “no Instagram”, “no Facebook” ou “no X” (antigo Twitter), o fato é que existe um Facebook, e um Instagram e um X (antigo Twitter) diferente para cada pessoa do mundo. Duas pessoas não veem o mesmo conteúdo; não têm a mesma timeline. E para uma democracia, isso é um pesadelo. Se na TV basta assistir pra saber o que está sendo veiculado (o mesmo vale para rádios, revistas e jornais impressos), numa rede social ou numa inteligência artificial é impossível para João saber o que Maria está consumindo, ou para o Tribunal Superior Eleitoral saber o que está sendo veiculado ou não. E é assim que você, sem perceber, se tornou um alvo de uma coisa chamada Guerra Híbrida.
Duvida?
Segundo o site Visual Capitalist, das cinco maiores redes sociais do mundo em 2026, as quatro primeiras são americanas. Na quinta colocação aparece o chinês TikTok.
Você se lembra do que aconteceu com o TikTok nos Estados Unidos quando ele se tornou esse gigante?
Sim, o TikTok foi banido, e a justificativa foi justamente a de que havia uma preocupação de que o governo chinês pudesse coletar informações de cidadãos americanos, e influenciar suas mentes. Curioso como nenhum defensor “da liberdade”, da “livre iniciativa” e da “propriedade privada” se manifestou em defesa do TikTok. Já quando o Brasil decidiu discutir a regulamentação das redes sociais com o PL das Fake News, foi feito um estardalhaço, apelidaram o projeto como o “PL da Censura”, e as próprias big techs americanas atacaram o projeto.
O NOSSO SÉCULO DA HUMILHAÇÃO
A verdade é que a China só parece estar no futuro porque nós ainda estamos presos no passado. Eles já passaram por isso, e superaram o desafio com muita dor e sofrimento. Eu posso não concordar com muitos dos métodos utilizados pelo Partido Comunista Chinês, mas também não dá pra discordar que eles talvez tenham um pouco de razão. Observar o estado letárgico de nossa população, e seu óbvio desinteresse em desenvolver mecanismos de defesa e sua própria capacidade intelectual só me faz crer que este é o nosso século da humilhação. Que a nossa longa marcha seja menos trágica que a do povo chinês...