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A Morte Branca

Nota do autor: esta história foi criada por mim em 2007, reescrita em 2018, e possui descrições gráficas de violência extrema. Alguns termos usados para descrever as personagens podem soar antiquados e ofensivos.


Alteza,

Peço perdão por tomar seu precioso tempo com esta carta, mas possuo informações relevantes e de seu interesse. Antes de tudo, permita-me apresentar este que vos escreve. Sei que esta carta foi entregue a ti em nome do general Olof, seu conselheiro e mago oficial, e peço perdão por isso. Na verdade me chamo Erik Fältskog, residente do condado de Vasterbotten, ao norte do reino da Suécia. Mentir sobre a autoria desta carta foi a única forma que encontrei para fazer com que a mensagem de um simples plebeu chegasse às mãos de vossa majestade. Há algumas coisas que o rei precisa saber sobre este humilde homem, antes de tudo. A primeira delas é que eu não sou pessoa de confiança, mas isso o senhor já sabe. Para ser ainda mais franco, por mais irônico que pareça, digo-lhe que sou malandro da pior espécie. Entenderás os motivos no decorrer desta carta. Garanto-lhe, porém, que esta mensagem é de vosso interesse, e que tudo que for dito aqui é verdadeiro.

Escrevo para informar-lhe sobre um elaborado plano para assassinar vossa alteza, do qual tenho conhecimento. Desculpe-me por não adoçar estas palavras, mas acho que esta é a única forma de impedir-lhe que se desfaça desta carta antes do final deste parágrafo. Saiba, alteza, que o mentor e executor de tal plano não é nenhum conde ou barão inimigo. Quem pretende assassiná-lo é o seu próprio filho. "Qual deles?", vossa majestade deve se indagar. Direi em algum ponto desta carta. Há algumas coisas importantes que o senhor precisa saber antes disso. Vossa alteza talvez se pergunte sobre como um plebeu da distante Varsterbotten pode saber sobre uma conspiração para tomar-lhe a vida. Bem, aqui vai um pouco de história...

Nasci no pequeno e escondido vilarejo de Vita, situado a alguns dias de caminhada da cidade de Lulea. O uso da palavra "escondido" não é mero acaso. Com o objetivo de escapar da violência em Lulea, nossos antepassados migraram para o interior. Entre lagos, florestas e colinas, Vita parecia ser o lugar ideal para uma vida tranquila, capaz de prover alimentos e os materiais necessários para sobreviver ao inverno do norte.

Foi em Vita que conheci Magnus Eriksson, meu melhor amigo de infância. Nossas mães eram amigas de longa data, e se chamavam Olga Fältskog – minha mãe – e Marie Eriksson – a mãe de Magnus. Natural então que Magnus e eu fôssemos muito apegados um ao outro.

Certo dia, quando ainda éramos crianças, organizávamos suprimentos para o longo inverno que se aproximava, quando algo extraordinário aconteceu: observei um estranho ponto de luz sobre a colina mais próxima. Minutos mais tarde, outros dois pontos de luz surgiram sobre o elevado. Depois, dezenas, centenas deles. Chamas, notei, das tochas de uma multidão que marchou colina abaixo e invadiu nosso vilarejo. Eram soldados liderados pelo mago Olof, que mais tarde se tornaria vosso general e conselheiro, quando vossa alteza assumiu o trono deixado por seu pai.

Feioso desde então, Olof, com um sorriso maligno no rosto, demandou falar com o chefe da vila. Mas não havia um. Nenhum homem apareceu para recebê-lo. Como eu disse, o inverno batia à porta. Naquele dia, todos os homens haviam saído para pescar, o que irritou o mago. Marie, a mãe de Magnus, decidiu questionar os motivos da baderna, mas sua determinação se desfez ao ver a face do mago.

Ela começou a tremer, e tentou esconder o rosto.

Olof cravou um olhar curioso sobre Marie, como se a conhecesse de algum lugar, mas não lhe deu atenção. Agnetha, outra amiga de minha mãe, tentou assumir as rédeas da situação, mas Olof não parecia disposto a dialogar com mulheres, o que julguei estranho vindo um sujeito feio como ele. O mago deu um sermão em todos nós, e se disse enojado por descobrir ao acaso um vilarejo como o nosso, escondido entre as florestas do reino, onde plebeus viviam sem pagar impostos ao rei. Ordenou então que os soldados saqueassem as casas, que recolhessem ouro, prata e outros objetos de valor, e até mesmo a nossa comida. Mas éramos um povo simples, fato que o mago não tardou em notar. Então, como o mau homem que era, ele conjurou enormes labaredas com seu cajado e queimou as casas, uma a uma, enquanto os soldados matavam qualquer um que tentasse se colocar em seu caminho.

O caos tomou conta do vilarejo. Por um golpe de sorte, escapamos do massacre. Eu, Magnus, Marie e minha mãe nos escondemos na mata. Poucos tiveram a mesma sorte. No caminho até às arvores jazia o corpo decapitado de Agnetha, arrastada até lá por um soldado montado em um cavalo. Mais à frente, uma égua desgovernada arrastava Astrid, uma garotinha de voz engraçada que vivia nos limites da vila. Ouvíamos gritos desesperados, vozes conhecidas. Mas não havia nada que pudéssemos fazer. Então corremos, fugimos pela floresta. Nenhum soldado nos perseguiu. Talvez fosse do interesse do mago que a notícia se espalhasse, que a história provocasse temor por onde passássemos.

Seguimos em direção à cidade de Lulea. Exaustos, famintos e tentando não morrer de frio, caminhamos quatro dias pela floresta. Sobrevivemos, mas a cidade não nos trouxe alento. Por dias nos alimentamos de restos de comida que encontrávamos no lixo, e nos protegíamos do frio com o que havia pela frente. Éramos mendigos, e eu vomitava ao menos duas vezes por dia, o que não era nada comparado ao quão doente Magnus ficou. Mas eis que uma freira nos ofereceu abrigo e três refeições diárias, desde que trabalhássemos para ela e pelo convento. Queríamos voltar a ter uma vida normal, e aquela não era a oportunidade certa. Mas era melhor do que sofrer nas ruas, onde certamente encontraríamos um fim.

Cama e comida quente nos devolveram as energias, o que certamente nos manteve vivos nos dias que se seguiram, que não foram fáceis. Certa manhã, enquanto a cidade ainda acordava, um movimento agitou a praça em frente ao porto de Lulea. Saímos para observar a comoção, e vimos que se tratava da entrada da tropa de Olof na cidade. Numa demonstração de poder, os soldados traziam sobre uma carroça o corpo de um troll da montanha. A criatura era exibida com orgulho, como se o fato de um batalhão de quase mil homens fortemente armados ter arrancado as tripas de um animal selvagem fosse um grande feito. De qualquer forma, os moradores jubilaram-se durante todo o dia, até que o enorme corpo começou a feder tanto quanto o bafo de Olof, e então jogaram-no nas águas do golfo de Bótnia.

Pouco antes do anoitecer, fomos convocados até o casarão da cidade pela freira e, lá chegando, nos ordenaram que limpássemos o recinto. Passamos a noite retirando pilhas de lixo e muita poeira para preparar o lugar para um visitante especial, que chegaria no dia seguinte. O visitante, descobrimos mais tarde, era o então príncipe Björn Karlsson, ou seja, vossa própria alteza, quinze anos mais jovem.

O dia já clareava quando deixamos exaustos o casarão, e retornamos para o convento. Os soldados montavam guarda em vários pontos da cidade, e não se falava em outro assunto senão a visita do príncipe. Havia um sentimento de abandono nas regiões mais ao norte, sendo que a ultima visita de um membro da família real ocorrera nove anos antes, quando a duquesa de Uppsala esteve em Lulea com o príncipe Björn Karlsson, vossa alteza. Portanto, o retorno do príncipe ao condado de Norrbotten era um grande acontecimento, mesmo que desacompanhado do rei ou da duquesa.

Depois de um banho quente e comida, o sono veio depressa. Algumas horas de merecido descanso antes de retornarmos ao trabalho. Mais tarde, fomos despertados por Magnus, que nos perguntava sobre sua mãe. De fato, Marie não se encontrava em sua cama ou em qualquer outra parte do convento, tampouco deixou recado. Cogitamos que talvez ela tivesse saído para uma caminhada matinal, e que não nos avisou por não querer importunar o nosso sono. O fato é que fizemos o desjejum, mais tarde o almoço, e Marie não retornou.

Decidimos então vasculhar cada canto de Lulea. Minha mãe seguia sozinha, enquanto Magnus e eu procurávamos juntos por Marie. Éramos talvez os únicos a ignorar a chegada da comitiva real na cidade. Vagamos por praticamente todas as ruas e vielas até o anoitecer, mas a mulher parecia não estar em lugar algum. Então retornamos para o convento, e encontramos a minha mãe...

Ela chorava.

E por alguma razão, apesar de minha insistência, ela não disse o motivo. Magnus, pobrezinho, logo compreendeu que aquilo não tinha como ser um bom sinal. E vendo o meu melhor amigo e minha própria mãe naquele estado, eu também desabei. A dor acumulada pelos dias anteriores parecia querer rasgar o meu peito.

Só então minha mãe tentou se recompor. Enxugando as lágrimas, ela abraçou Magnus e disse:

– Não se preocupe, querido. Sua mãe está no casarão, e voltará logo.

Ela então me encarou por um instante, e continuou:

– Um dos guardas do casarão disse que a viu entrar. Tudo ficará bem – completou com um sorriso forçado.

Lembro-me de tê-la encarado de volta me perguntando: se tudo ficaria bem, por que ela chorava? Mas não tive a oportunidade de externar tal questionamento, porque o estômago de Magnus roncou alto.

– Oh, meu Deus – minha mãe disse. – Venham, meninos. Vamos entrar e comer alguma coisa.

Recolhemo-nos para o interior do convento, onde uma panela com sopa quente nos aguardava. Estávamos cansados, mas ninguém parecia disposto a ir para a cama antes que Marie voltasse. Gastávamos tempo no chão do quarto, quando a quietude da noite fora perturbada por uma estranha comoção na praça entre o casarão e o porto. Uma mulher gritava, e gritava bastante. Minha mãe se levantou assustada, e antes de sair correndo, ordenou que eu e Magnus ficássemos ali, o que obviamente não fizemos. Ouvíamos mais gritos e estalos enquanto descíamos a escada. Quando alcançamos a rua, a curiosidade cedeu lugar ao choque: era Marie quem gritava.

Marie era arrastada pelos cabelos até o centro da praça, e espancada por Olof. Nossa freirinha foi a primeira a protestar, seguida de alguns poucos corajosos que gritavam e corriam para separar Olof de sua presa. O mago então conjurou um círculo de fogo com seu cajado para manter os curiosos a certa distância, e seus soldados logo desembainharam as espadas para ameaçar os populares revoltosos. Quanto mais Olof a espancava, mais alto Marie gritava. Era quase possível sentir a dor se propagando pelo ar a cada berro, a cada chute e puxão de cabelo que a mulher sofria.

Após o choque inicial, finalmente me dei conta de que Magnus corria para tentar ajudar a mãe. Pequeno, passou despercebido pelos guardas, e pulou corajosamente por entre as chamas do círculo de fogo conjurado pelo mago. Mas ele não tinha a menor chance contra Olof, que só percebeu a chegada do garoto quando ele já estava bem próximo. Com seu cajado, o mago lançou o que pareceu ser uma violenta lufada de ar, que arremessou Magnus de volta em direção às chamas. Por sorte, o poder de Olof também fez sucumbir parte da muralha de fogo, e Magnus se safou com apenas alguns arranhões.

Um rapaz alto de Lulea, um dos manifestantes mais exaltados, arrancou uma pedra da rua e a lançou em direção ao mago. A pedra o atingiu em cheio, rasgando sua face. Seu magro rosto, uma ode à feiura, tornou-se ainda mais grotesco. Mas Olof tinha menos caráter do que beleza. Era muito feio por fora, e completamente horrível por dentro. Irado, ele empapou uma das mãos com o sangue que escorria de seu rosto, e deu um ultimo tapa no rosto de Marie, misturando o seu sangue com o dela. Encarando o rapaz que o havia atingido como se dissesse "isso é culpa sua", Olof ergueu o cajado e envolveu Marie em chamas.

O mago permaneceu imóvel ao lado da mulher enquanto ela queimava em agonia, como se tirasse prazer daquilo. Quando os gritos finalmente cessaram, Olof aplicou em Marie o mesmo golpe de ar que aplicara em Magnus, fazendo com que o corpo carbonizado fosse lançado sobre o porto, até o mar.

Tudo que eu consegui fazer foi assistir boquiaberto a todo aquele horror.

Quando voltei o olhar para Magnus, vi que ele já estava de pé, inerte. Uma saraivada de pedras era lançada pelos populares indignados com o que haviam acabado de presenciar, e os soldados aplicavam golpes mortais de espada em qualquer um que estivesse por perto, quando alguém me puxou pelo braço.

– Erik! Cadê o Magnus? – minha mãe perguntou com a voz embargada, lutando para manter a sanidade. – Meu Deus, temos de sair daqui...

Apontei na direção em que eu o havia visto, mas Magnus já havia desaparecido. Afastamo-nos do caos enquanto espadas tintilavam atrás de nós. Observávamos o entorno enquanto corríamos, na esperança de encontrar meu amigo em algum lugar.

– Olof vai queimar a cidade toda – minha mãe disse, a voz trêmula. – Temos de sair daqui. Pobre Marie... Magnus...

Em meu âmago, o desespero. Só não sabia se era pela dor da perda e indignação que meu amigo sentia, ou por imaginar que talvez aquele fosse o meu último dia ao lado de Magnus; por saber que àquela altura, ele poderia estar morto.

Caminhamos pela mata noite adentro, os pensamentos sinistros sobre Magnus indo e voltando, e a lembrança macabra do destino da pobre Marie. Minha mãe falava o tempo todo, mesmo ofegante, reassegurando-me que ela estava ali, ao meu lado, na tentativa de me manter calmo. Ela revelou que esperava que meu pai viesse nos procurar em Lulea, quando descobrisse o que aconteceu em Vita. Mas ele nunca apareceu. Então era a nossa vez de procurá-lo. Entre passos e paradas, entre dias frios e noites sombrias, caminhamos pela neve recente até chegarmos ao nosso antigo vilarejo. E, para a nossa surpresa, lá estavam os homens. Entre eles, meu pai.

Todos mortos.

Exaustos e sem comer havia dois dias, sequer tínhamos forças para enterrá-los. Tudo que pudemos fazer foi contornar o terreno, de modo que o vento não trouxesse o odor dos corpos em decomposição. Então nos sentamos e choramos.

Em um momento como aquele, eu gostaria de dizer que não sentia fome. Mas a verdadeira fome não respeita o luto. Então decidimos procurar por suprimentos, e descobrimos que não havia sobrado nada por entre as ruínas do que um dia fora o nosso lar. Olof e seu bando devem ter permanecido em Vita após nossa fuga inicial, saqueando o vilarejo, estuprando as poucas sobreviventes, e aguardando pelo retorno dos homens que haviam partido para a pescaria. Isso explica o porquê de termos chegado tantos dias antes de Olof a Lulea.

Sem ter para onde ir, montamos uma fogueira no coração do antigo vilarejo com o pouco de madeira que o mago não havia queimado. Encontramos uma panela entre os escombros, e derretemos a neve sobre o fogo. O prato da noite foi uma raiz que minha mãe encontrou. Parte de mim recusava a comida, enquanto a outra parte pedia desesperadamente por um pouco de energia. O corpo doía, e a única luz que brilhava sobre nós além do fogo era o véu da aurora que cobriu o céu. Naquela noite eu aprendi a detestar o silêncio.

Acordei na manhã seguinte com um corvo me bicando. Deve ter achado que eu era um cadáver mais fresco. Um sinal estranho de se receber. A morte ali era quase palpável, e parecia querer que eu me juntasse a ela. Levantei-me, apesar da dor que sentia por todo o corpo, para finalmente observar a desolação daquele lugar em sua plenitude.

Não havia nada mais que nos prendesse a Vita.

E algo pesava em nossa consciência. Precisávamos procurar por Magnus; descobrir se ele ainda estava vivo, ou ao menos onde havia sido enterrado. Foram então mais quatro dias de caminhada de volta a Lulea, sem que qualquer palavra fosse dita entre eu e minha mãe.

E eu odiei aquele silêncio.

Lulea estava em melhor forma do que imaginávamos, mas o estrago ainda era grande. O príncipe havia partido junto da tropa de Olof, e aos poucos a cidade retomava os rumos da normalidade. Procuramos pela freira que nos havia acolhido, e disseram que ela também havia sido morta. Ganhamos um punhado de comida de um homem generoso, vizinho do convento, e saímos pelas ruas à procura de Magnus. Gritávamos o nome, perguntávamos aos transeuntes, mas toda vez que nos apontavam um rapazinho loiro, olhávamos esperançosos, mas nunca era o garoto.

Abrigamo-nos de novo no convento. Éramos conhecidos por lá. Passamos três dias a procurar por Magnus, mas meu amigo parecia não estar em lugar algum. Eu só conseguia pensar em seu corpo no fundo do mar de Bótnia, junto de sua mãe. Era o tipo de coisa que jamais deveria passar pela cabeça de uma criança, mas essa é a marca que gente como Olof deixa nas pessoas.

Após dias de busca infrutífera, e temendo o retorno do mago para vingar a insubordinação da cidade, partimos para o sul, sem destino. Na primeira noite de viagem, avistamos uma fogueira a cerca de duzentos passos de nós. Eu estava exausto, cansado da neve e da dor no estômago. Temendo que fossem soldados, pedi para que minha mãe esperasse, e avancei sorrateiro em direção ao acampamento. Havia uma cabana armada próxima à fogueira, e pude ouvir o ronco grave de seu ocupante. Concluí que um homem enorme dormia ali. Avistei ao lado da cabana um cavalo com bolsas penduradas em ambos os lados do corpo. A fome e o cansaço eram mais fortes que o medo que eu sentia. Então tive uma ideia, e precisava ser rápido e sutil. Desamarrei o cavalo e subi em seu lombo, quando então me dei conta de que nunca havia montado em um cavalo antes. Dei tapinhas em seu pescoço, chutei sua barriga, mas o animal não se movia. Eu era um ladrãozinho pra lá de patético...

Tentei com mais vigor, cheguei a quicar sobre o lombo do maldito cavalo que, como se debochasse de mim, apenas relinchou. Então escutei movimentos dentro da barraca. Estou morto, pensei, observando que o ronco havia cessado. Esse cara vai acabar comigo. Anda cavalinho! Mas a droga do cavalo permaneceu impassível. A porta da barraca se abriu, e dela saltou uma criatura troncuda como eu imaginava.

Eu só não contava com o fato de ser uma mulher...

– LADRÃÃÃÃO! – ela gritou, parecendo mais assustada que eu. – HANS, LADRÃÃÃO!!!

Então é esse tal de Hans quem vai me matar, pensei, imaginando um sujeito igualmente grande e mal encarado. Escutei um barulho no mato atrás de mim e, apesar de meu desespero, o maldito cavalo parecia colado ao chão. Quando me virei, vi o tal do Hans e, céus, ele era ainda mais estranho que a mulher! O sujeito raquítico ergueu um arco e flecha na minha direção, e disparou. Por sorte, Hans era vesgo, e atingiu o alvo errado. A flecha varou a bunda do cavalo, que finalmente saiu em disparada, para o meu quase alívio. Não sei se foi sorte ou o talento que advém do desespero, mas consegui fazer o cavalo desviar de uma árvore e saltar sobre um tronco caído, afastando-me do acampamento em relativa segurança. Puxei a rédea para a esquerda, e o cavalo finalmente respondeu. Puxei à direita, e percebi que agora eu tinha controle sobre o animal. Com alguma dificuldade, reencontrei a trilha por onde eu e minha mãe seguíamos, e ela me esperava alguns metros à frente.

– Erik! Erik, meu filho, graças a Deus... – disse dona Olga, vindo em minha direção. – Escutei gritos. Você está bem? O que aconteceu?

– Estou bem, mãe. Fique calma. Mas não sei dizer quanto ao cavalo – disse apontando para a flecha fincada em seu traseiro.

Desci do bicho para aliviar o peso sobre o ferimento. Abrimos as bolsas amarradas ao cavalo e descobrimos que havia três pães em uma, e sabão na outra. A refeição da noite estava garantida, e talvez um banho. Mas não podíamos nos dar ao luxo de ficar por ali, então caminhamos por mais algum tempo, e só depois pudemos parar e averiguar o estrago na anca do animal. Talvez pela falta de jeito ou de força do tal Hans, a flecha não penetrou muito além do couro, causando pouco sangramento e provavelmente nenhum dano ao músculo. O pangaré certamente não pareceu reclamar, ou ao menos teve o bom senso de não fazer piada sobre o nosso peso quando montamos e partimos pela trilha rumo ao sul, até chegarmos a um vilarejo.

Não tínhamos ideia de onde estávamos, e com medo de que Hans e sua linda mulher pudessem nos encontrar por ali, tiramos apenas um tempo para descansar até o amanhecer. E para quem já havia roubado um cavalo, furtar galinhas pode parecer um retrocesso. Elas não servem de montaria – acredite, eu tentei – mas dão uma bela canja, que mamãe fez com uma pitada de amor e o resto de orgulho que ainda nutria por mim.

Seguimos em frente até alcançarmos a cidade de Pitea no fim da tarde e, após algum descanso, partimos para o próximo vilarejo que por ventura encontrássemos pelo caminho. Passamos por vários lugares, mas não nos estabelecíamos em nenhum. Sempre deixávamos o local com medo de sermos descobertos após meus pequenos – e agora constantes – furtos.

Eu era apenas uma criança faminta, alteza, entenda. Eu precisava fazer algo pela minha mãe, ser um porto seguro para ela. Viajávamos sem destino na esperança de encontrar algo ao fim do caminho. Mas no fundo, sabíamos que não havia nada nos esperando. Nossos amigos jaziam mortos, e nossa casa, destruída. Não tínhamos nada além de um ao outro.

– Erik – disse certa vez minha mãe, na estrada. – Vem vindo alguém!

Não havia mais sentido em nos esconder. A estrada era plana e cruzava um campo aberto. Se estivessem prestando atenção, já teriam nos avistado de longe. Então seguimos em frente até cruzamos com os três homens que vinham na direção oposta. Dois deles seguravam uma corda, um em cada ponta, e o terceiro, mais atrás, vinha amarrado à mesma.

– Ei! – disse o louro alto – O que tens aí? – Perguntou apontando para as bolsas do nosso cavalo.

– Deixe a mulher e a criança em paz, irmão – o prisioneiro disse.

– Cale a boca, imbecil! – gritou o brutamonte. – Só abra essa matraca quando eu mandar!

Uma senhora e um menino sozinhos na estrada? Éramos alvos fáceis. Mas evitamos contato visual e seguimos em frente.

– Ei, vadia! Eu fiz uma pergunta! – o grandalhão gritou, largando a corda e vindo em nossa direção.

– Por que você mesmo não olha? – disse o homem amarrado – Se vai roubar de uma mulher e uma criança, ao menos os poupe da humilhação, seu babaca!

– CALA-TE! – disse o terceiro homem, dando um soco no rosto do prisioneiro, derrubando-o.

Eu me segurava à cintura de minha mãe, e vi quando o grandalhão se aproximou e esticou os braços para alcançar uma das bolsas sobre as ancas do cavalo. No momento oportuno, dei um tapa na bunda do animal, bem em cima de sua ferida, o que o fez dar um coice em cheio no peito do grandalhão. Estarrecido, o outro rapaz correu para ajudar, e não notou que o prisioneiro se levantava num pulo. O baixinho usou a corda que prendia seus braços para enforcar seu algoz, numa impressionante demonstração de agilidade de raciocínio. Assustada, minha mãe acelerou o passo do cavalo, e logo o prisioneiro começou a gritar:

– Ei! Me ajudem, por favor! Ei!

Amarrado daquele jeito, o pobre coitado não teria a menor chance. Saquei então uma faca que havia furtado horas antes e pulei do cavalo, o que irritou minha mãe. Fui até o homem e cortei um dos nós da corda, libertando-o. Foi uma ideia estúpida, eu sei. Ele poderia ter roubado a faca me feito refém. Ele poderia roubar nosso cavalo e nossos poucos pertences.

Mas ele não fez nada disso.

Ele era um homem bom, de certa forma, se você ignorasse o fato de que talvez ele tenha sido o maior ladrão de Norrland. Aquele rapaz nos ensinou a controlar melhor o cavalo, a como montar armadilhas, e muitas outras coisas. Nos quase vinte dias em que esteve conosco, ele me ensinou tudo o que hoje eu sei sobre ser um boêmio canalha, bandido e sem-vergonha. Seu nome verdadeiro, eu nunca soube. A cada dia ele inventava um. Mas vou chamá-lo de Garibaldo nesta carta.

Em seu ultimo dia conosco, Garibaldo me deu uma tarefa final: ajudá-lo a assaltar uma carruagem do Banco de Palmstruch, repleta de prata e ouro. Não entrarei em detalhes, porque um mágico não deve revelar seus truques, e também porque as roupas da minha mãe caíram muito bem em mim. Posso apenas dizer que usei meus "talentos artísticos" para atrair a atenção dos guardas, enquanto Garibaldo completou o serviço sem ser notado. Ele arrancou apenas uma saca de dinheiro da carruagem, o suficiente para garantir sua fuga para um local distante, e um lar para eu e minha mãe na cidade de Umeo. Ela encontrou trabalho em uma taverna da cidade, onde vivemos até hoje, quinze anos depois, bem alimentados, entre paredes firmes, e debaixo de um teto grosso. Quanto a mim... bem, posso dizer que dei continuidade ao espetáculo antes protagonizado por Garibaldo, e jamais precisei fugir de Umeo, pois aprendi a não deixar rastros, e nunca fui flagrado praticando meus atos pecaminosos...

Exceto por uma única vez.

Aconteceu precisamente há cem dias, eu acho. Eu caminhava por entre as lojas da cidade, e o sol brilhava forte. Então avistei um reflexo que atraiu meu olhar. Ela era absolutamente linda. Estava dentro de uma loja movimentada, atrás de um vidro, o aspecto radiante. Era o tipo de coisa que alguém como eu arriscaria a própria vida para ter, e foi exatamente o que fiz. Devia pesar um quarto de quilograma, e o vermelho era a cor que somente um autêntico rubi poderia ter. Em formato de coração, era a pedra mais maravilhosa que eu já vi. Então, eu obviamente a furtei.

Caminhei pela movimentada rua com naturalidade, admirando as garotas por quem cruzava, pensando em qual daqueles pescocinhos cheirosos eu deveria pendurar o coração de rubi. Enquanto pensava nas possibilidades, notei um vulto branco apressado atrás de mim. Apertei o passo, cruzei becos, dobrei esquinas. Então corri. Eu conhecia todos os atalhos de Umeo, e estava convencido que de forma alguma eu me deixaria ser detido por um único sujeito. Cortei vielas, me escondi por algum tempo, deixei parte de minhas roupas para trás, mas sentia que ainda era observado. Eu nunca soube de onde ele saiu. Ele caiu sobre mim como um lince faminto se joga sobre uma lebre. Carregava uma espada e um arco sobre costas, mas empunhava uma faca afiada sobre o meu pescoço. Como todo ladrão que se preze, agi como um merdinha e implorei por minha vida de olhos fechados, temendo a punhalada que separaria o espírito de meu corpo. O homem, contudo, não desferiu o golpe, tampouco perguntou sobre a pedra. Então abri os olhos e vi um rapaz confuso.

Eu vi... Magnus!

Não fui capaz de me conter. Quase não acreditei. Mas o cabelo louro debaixo do capuz, os olhos azuis e a tez pálida de sempre... Havia agora uma barba rala em sua face, mas era ele! Tive a certeza assim que o vi, e ele também me reconheceu. Magnus não sorriu de volta, mas ajudou-me – com a força de um urso – a ficar de pé. Apesar da expressão séria, eu o conhecia bem, e sabia que estava feliz em me ver após tantos anos. O olhar úmido o denunciava. Eu o abracei, e o convidei para um almoço em minha casa. Ele aceitou sob a condição de que eu devolvesse o rubi, o que eu fiz.

Quando passei pela porta na companhia do meu velho amigo, minha mãe desabou em lágrimas. Dona Olga o beijou e abraçou tanto que precisei separá-los. Era mesmo comovente. Estávamos certos de que Magnus havia morrido, mas ali ele estava, bem diante de nós, mais velho e pálido como um fantasma, impressão que era reforçada pelas vestes brancas que ele portava. Aproveitando-me do humor renovado de minha mãe, pedi para que fizesse um cozido enquanto Magnus contava sua história desde o momento em que fomos separados em Lulea, quinze anos antes.

Com apenas oito anos de idade, Magnus viu sua mãe ser morta pelo fogo infernal do mago Olof, o que despertou nele um desespero tão grande e tão profundo que o garoto só pensou em correr. Magnus quis fugir para um lugar distante, longe da memória de Marie gritando e se contorcendo em chamas. Ele nos contou que deixou a cidade de Lulea e correu pela floresta, num esforço fútil de tentar deixar para trás o horror de tudo aquilo. A neve fofa o atrasava, mas não o impediu. Magnus correu por horas, até perder as forças.

Então desmaiou.

Horas ou dias mais tarde – ele não sabia dizer – sentiu-se sendo arrastado pela neve. Ele abriu os olhos e viu um enorme lobo puxando-o pela manga do casaco. Se Olof e o frio não o haviam consumido, então seriam os lobos que fariam esse serviço, pensou. Então desmaiou novamente, sem temer a dor ou a morte. Magnus agora tinha medo da vida...

Ele não soube dizer quanto tempo se passou entre a visão do lobo e o seguinte despertar, mas sentiu-se aquecido e ouviu vozes ao redor. Abriu os olhos e descobriu-se dentro de uma cabana. Viu também que uma criança o observava, e saiu correndo assim que o viu acordar. Em seguida, um grupo de três adultos surgiu pela porta. Tinham uma aparência exótica, cabelos lisos e escuros, e os olhos puxados da mesma cor. O trio conversava em uma língua estranha, o que deixou Magnus ainda mais confuso. Uma mulher que aparentava ser a líder do grupo saiu, e retornou em seguida com uma cumbuca com o que parecia ser uma sopa de peixe. Faminto, o pequeno Magnus devorou o prato quase todo de uma só vez, e só então sentiu o gosto da raiz forte que o fez se contorcer sobre a cama.

Magnus se recuperava, um dia após o outro. Os músculos já não mais doíam, mas sua mente estava em frangalhos. Permanecia na cabana a maior parte do tempo, saindo apenas para fazer suas necessidades fisiológicas. Após uma semana de melancolia e luto, começou a se sentir entediado, e decidiu se aventurar pelo acampamento. Aquelas pessoas o observavam com atenção, mas poucos – em geral as crianças – se arriscaram a se aproximar. Na verdade, a maioria deles parecia querer distância do garoto. Eles pareciam não saber o que fazer com Magnus. Estava bem claro que ele não era bem vindo ali, e levou um tempo para ele descobrir o porquê.

Pouco mais de três meses, pra ser preciso.

Foi o tempo que Magnus levou para aprender de forma rudimentar a língua deles. Mas a língua falada trouxe apenas a confirmação do que ele já suspeitava: que aquele era um povo nômade que vivia nas montanhas, e evitava o contato com a civilização. E, de repente, ali estava a civilização no meio deles, na forma de um garoto cujos olhos e cabelos emprestavam as cores à gloriosa bandeira do reino da Suécia.

Muitos não escondiam o desgosto de vê-lo ali. Para eles, Magnus deveria ter sido devorado pelos lobos. Mas, por alguma razão que eles não compreendiam, os lobos o haviam trazido até ali. E se as criaturas sagradas eram da opinião de que o menino deveria permanecer vivo, então assim seria.

Mas a bênção dos lobos não fez de Magnus um privilegiado. Apanhava constantemente dos meninos maiores, e recebia tratamento diferenciado dos adultos, e não num bom sentido. Magnus era constantemente deixado par trás nas aulas de caça, e em geral ninguém o ajudava. Em pouco tempo teve de aprender a caçar e a preparar a própria comida, as próprias roupas e as próprias armas. Todo mundo parecia fazer questão de que sua vida fosse um verdadeiro inferno, e não eram raras as vezes em que Magnus era vítima de emboscadas por parte de seus próprios colegas. Em uma delas, foi amarrado a uma árvore, e lá permaneceu por mais de oito horas, atacado pela neve e o vento polar. Já desacordado, Magnus foi novamente encontrado por um lobo, que uivou até a chegada de seu professor de caça, que o resgatou.

Foi então que Magnus se deu conta de que deveria aprender a se defender. Tudo aquilo, de acordo com ele, serviu para distraí-lo de seu luto. Suas provações o destruiriam, ou o tornariam mais forte. Magnus escolheu a segunda opção. Trabalhou como dentista, arrancando alguns dentes com os punhos, manchando a neve de saliva misturada com sangue, até que finalmente fosse, se não respeitado, ao menos temido.

Minha mãe enxugava os olhos enquanto Magnus contava sua história, imaginando o sofrimento pelo qual ele havia passado. Eu, por outro lado, ri da lembrança dos mil homens de Olof exibindo o corpo de um troll pequeno como troféu em Lulea, enquanto Magnus, ainda adolescente, tivera de matar um troll adulto sozinho como rito de passagem.

A cada ano, as lições se tornavam cada vez mais duras. Magnus virou um caçador, não através de um diploma, mas por instinto. Retribuiu por anos a estranha hospitalidade daquele povo nômade, mas ele não poderia esperar muito tempo. Detestaria descobrir que Olof havia morrido por outras mãos que não as suas. Fez de seu corpo e mente uma máquina de matar, com o propósito de reencontrar-se com o mago, e vingar sua mãe. Só então desceu a montanha.

Terminamos o almoço e nos preparamos para uma caminhada pela cidade. Antes de partirmos, dei de presente para Magnus uma espada de prata que estava guardada havia anos em um baú. Obviamente não o alertei para o fato de que era um objeto roubado. Em contrapartida, Magnus me deu sua espada, uma lâmina desgastada da qual se orgulhava de ter feito. Apesar da aparência rústica, a lâmina era extremamente afiada, e seu aspecto era maravilhoso, como se cada ranhura contasse uma história.

Caminhamos em direção à porta. Era a minha vez de contar pelo que havíamos passado, mas dona Olga também parecia ter algo a confessar. "Erik, Magnus..." ela começou a dizer, mas interrompeu-se. Sua expressão de dor revelava que havia algo entalado em sua garganta. Insisti para que dissesse, que colocasse pra fora, mas ela apenas balançou a cabeça e enxugou o rosto. Disse que precisava de um tempo sozinha para organizar os pensamentos.

Então saímos.

Magnus e eu caminhamos por toda a tarde por Umeo, às vezes parando para descansar sob a sombra de alguma árvore, ou para observar as moças que vivem por lá. Mais tarde, chegamos até o limite da cidade, e Magnus iniciou um longo assovio, repetido em intervalos regulares. Notei que ali, fora da cidade, ele parecia mais relaxado. Viver nas montanhas o tornou um apreciador da quietude, o oposto de mim. Como um baderneiro nato, eu detesto o silêncio.

Fizemos uma curva na estrada deserta e, para meu espanto, um enorme lobo, branco como a neve, nos aguardava metros à frente. Ele nos encarava, mas, estranhamente, não correu ou nos atacou. Tinha a mesma cor que a vestimenta de Magnus, e percebi que aquela não era a única ligação entre eles. A criatura, Magnus disse, era seu parceiro de caça, um presente que recebera nas montanhas. Um animal de estimação um tanto antiquado, pensei. Mas o lobo era mais que isso. Com seu olfato e audição apurados, agia como um amplificador dos sentidos de Magnus.

– A janta de hoje é por minha conta – Magnus disse.

Então caçaram uma lebre ali mesmo. O lobo escutava e farejava o rastro do pequeno animal, com Magnus em seu encalço. Escalou uma árvore, sacou um projétil do saco de flechas preso às costas e preparou o disparo, que saiu aparentemente em direção ao nada. Mas eu estava errado. O lobo correu naquela direção, e retornou pouco depois com a lebre entre os dentes, a flecha atravessada em seu pequenino corpo. Magnus e o lobo trabalhavam como uma máquina, precisos como um relógio. Tic, tac, tic, tac, tic, tac... Era preciso ver para acreditar.

Voltamos para casa horas mais tarde, quando minha mãe nos chamou à mesa. Respirou fundo e finalmente nos contou o segredo que a atordoava havia muitos anos. Uma torrente de lágrimas escorria enquanto ela falava, e ouvimos atentos a sua surpreendente história.

Dona Olga, como vossa alteza deve ter notado, sempre foi uma chorona de coração mole. Mas o que o senhor talvez não saiba é que o poderoso mago Olof era ainda mais chorão. Ah, majestade, você deveria ter visto a cara dele quando Magnus tocou a lâmina da espada de prata em sua garganta, algumas semanas depois. Com séculos de história, e sobrevivente de incontáveis guerras, a fortaleza de Bohus foi finalmente invadida meramente por dois homens e um lobo. Não é engraçado?

A pequena demonstração de Magnus e o lobo fora de Umeo não se comparava ao que fizeram na fortaleza. O homem e o animal se moviam em velocidade estupenda, parecendo dois borrões brancos em movimento, como raios de luz em um antro de sombras. Uma onda de morte, um sentimento aflitivo, um furor caótico, mas precisos como um relógio. Tic, tac, tic, tac, tic, tac...

Olof deve ter concluído que a morte era branca.

O mago clamava por misericórdia, e eu ria cada vez mais alto a cada berro seu. Nunca pensei que teria coragem de fazer o que eu fiz naquela noite, mas, com Magnus, sentia-me capaz de tudo! Descobrimos que Olof não era nada sem seu cajado. Ah, alteza, você deveria ter escutado as coisas que ele disse antes de morrer...

Dizem que a vingança é um prato que se come frio. Um homem enfurecido com uma tocha acesa e uma garrafa de brännvin nas mãos discordaria de tal afirmação.

Partimos da desolada fortaleza de Bohus e seguimos para Estocolmo, viagem em que escrevo esta carta. O rei deve estar curioso sobre o que dona Olga nos disse, mas eu gosto de imaginar que vossa majestade conhece a história, porque, bem... o senhor conhece.

O segredo que dona Olga nos revelou dizia a seu respeito. Ela nos contou que Björn Karlsson, vossa alteza, vinte e poucos anos atrás, ainda então um príncipe adolescente, incapaz de conter o próprio pênis dentro da ceroula, solicitou a Olof a formação de um pequeno harém para pôr em prática a luxúria em Lulea, longe das vistas de seus pais. Três belas jovens foram escolhidas e forçadas por alguns dias a se tornarem escravas sexuais de vossa alteza. Dentre elas, Marie Eriksson e Olga Fältskog. Tendo seus desejos carnais satisfeitos, o príncipe retornou para o seu castelo, no sul, enquanto Marie e Olga, desesperadas e envergonhadas, fugiram para um local distante, temerosas com a possibilidade de retorno do príncipe lascivo. Antes de morrer, Olof nos confirmou toda a história.

Tic, tac, tic, tac...

O tempo é uma coisa engraçada.

Mas chega de falar sobre o passado. Agora eu lhe direi o que acontecerá num futuro próximo: você ouvirá um rosnado dentro de seu recinto. À sua frente estará um grande lobo branco, os pelos enriçados, os dentes à mostra. Uma mão puxará os seus cabelos, e uma lâmina de prata tocará sua garganta. Você se assustará com o rosto bem acima de sua cabeça, e notará que ele se parece muito contigo, majestade. Então saberás que Magnus Eriksson é seu filho mais velho. Um filho bastardo que lhe roubará a vida naquele mesmo minuto.

Você gritará pelos guardas, e Magnus não irá impedi-lo. Estarão todos mortos, assassinados enquanto você era distraído por esta carta. Não haverá cavalaria. Ninguém virá em teu socorro, e você se perguntará como isso aconteceu. Ah, surpresa, surpresa!

Como um relógio, tic, tac...

Você tentará barganhar por sua vida, mas descobrirá que algumas coisas não se compram. Magnus não deseja títulos, palácios, terras ou ouro...

Ele deseja vingança.

Tic...

...tac.

Tic...

...tac.

Tic...

...tac.

Alteza...

Diga olá para o destruidor das sombras; a morte branca.

Seu tempo acabou.

Erik Fältskog